quarta-feira, 15 de abril de 2015

Oposição precisa abraçar o impeachment

Por Adelson Vidal Alves



O desenvolvimento jurídico e político do cenário nacional obrigam às oposições a tratarem com seriedade a possibilidade de uma abertura de impeachment contra a presidente Dilma. Isso por que a opinião pública e as manifestações de rua já elegeram Dilma como a principal responsável pelo cenário de caos e corrupção em que passa o país. Resta saber, se os partidos de oposição saberão se conectar com todo este movimento que cresce no país.

O primeiro passo foi dado. Hoje, 14 de Abril, o senador Aécio Neves recebeu em seu gabinete, além do PSDB, lideres de pelo menos 4 partidos oposicionistas: PPS, Solidariedade, PV e DEM, para discutir o tema do impeachment. Encontraram-se, ainda, com lideranças dos movimentos anti-governo que vem mobilizando milhares de pessoas em manifestações de rua nos últimos dias. São os primeiros sinais de que a voz das ruas começa a se articular com os partidos e os poderes da República. Pois é sabido, que os movimentos espontâneos, por si, não conseguirão fazer avançar suas pautas, é necessário a combinação adequada com as forças que movem o Estado e a política institucional.

Devemos, antes de tudo, estar convictos que todo este trabalho não está sendo direcionado por legendas golpistas ou autoritárias do mundo partidário brasileiro. Os principais partidos de oposição envolvidos são indiscutivelmente comprometidos com a ordem institucional e o Estado de direito. Não pretendem, de forma alguma, driblar as instituições, e muito menos quebrar as regras de jogo. O impeachment é recurso constitucional, e está sendo colocado em pauta com toda a cautela necessária, que exige atenção não só com as condições políticas, mas, principalmente, as jurídicas.

Não se trata de golpismo. Os múltiplos atores anti-governo são plurais, e são unidos, majoritariamente, pelo sentimento de aversão ao PT e sua forma de governo. Os grupos realmente golpistas são minoritários, e quando se aproximam dos partidos, seja por um vazio “fora Dilma” ou por pedido de intervenção militar, são prontamente rechaçados. Na contramão do discurso governista, não há por aqui uma “direita golpista” agindo contra democracia, mas sim um movimento legítimo e diversificado de forças sociais e políticas que convergem na opinião de que é preciso estancar o sangramento do país pela via que nos permite e oferece os instrumentos jurídicos da Carta de 88.

O PT não reúne condições morais e políticas para tirar o Brasil desta grave crise. A saída pelo impeachment, assim, é cada vez mais real. Exige-se, no entanto, que a oposição, sobretudo o PSDB, abrace, com o ânimo necessário, os caminhos adequados e constitucionais para que o atual governo seja destituído do poder, abrindo caminho para que o país respire ares mais propensos a uma solução nacional e positiva para a democracia brasileira.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

O ódio à classe média

Por Adelson Vidal Alves



A filósofa Marilena Chaui desceu do salto. Deixou Espinoza de lado por uns minutos e disparou: "A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”. O discurso foi proferido em um evento petista. Chauí não se preocupou com o fato de estar atacando a si mesma, seus pares uspianos e grande parte de seus alunos. Seu único objetivo era ser porta voz da nova estratégia governista de eleger inimigos a serem batidos.

No marxismo vulgar, esquemático e mecânico, a classe média é uma aberração, por que não estava prevista nos planos de Marx. Para o teórico comunista, o mundo se tornaria cada vez mais proletarizado, e os trabalhadores, ainda mais miseráveis. Seriam estas, condições indispensáveis para a revolução. Porém, o “diabólico” capitalismo foi capaz de elevar parcela significativa da classe trabalhadora a padrões razoáveis de consumo. Em outras palavras, fez desta parcela, classe média.

Diante disso, o que esquerda deveria fazer com a classe média? Simples. Ou atraí-la, ou atacá-la. Quando esta fundou o PT, era tratada como progressista, aliada dos trabalhadores. Mas quando o PT, por volta de 2005, segundo o belo livro do sociólogo André Singer, perdeu suas bases eleitorais da classe média,  deslocando-se para o subproletariado e os grotões de miséria do Norte e nordeste, ela virou “elite branca reacionária”.

Ora, qualquer sociologia minimamente séria sabe que não existe classe média, mas sim “classes médias”. Não podem responder por uma ideologia única, pois são plurais, e se organizam dentro de movimentos e discursos de esquerda, de centro ou de direita.


Os que saem hoje nas ruas contra o PT não são unicamente da classe média, nem essa é una em sua atuação. Como todas as classes, podem guardar interesses comuns, corporativos mesmo, mas jamais devem ser adjetivadas de forma estática e homogênea. As classes médias brasileiras têm faces diversas, e lugares diversos na luta de classes. Tentar dar a ela um único rosto é equívoco ou desonestidade intelectual. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Por que a escola fracassou?

Por Adelson Vidal Alves   

Escolas deveriam ser lugares de alegria. Como nos Jardins, praças e parques de diversão. Geralmente são como prisões. Não só porque retiram a liberdade de nossas crianças sobre como ocuparem seus tempos, mas, principalmente, por submetê-las a uma lógica escolar parecida com o sistema prisional.

Os conteúdos a serem ensinados são divididos em tempos rigorosamente cronometrados, separados por campos de conhecimentos absolutamente divorciados. Os alunos são desconectados do todo, da realidade universal. Entendem a História, a Física ou a Geografia como mundos diferentes, disciplinas que nada tem a se complementarem. Bem fez a Finlândia, que aboliu a divisão tradicional de conteúdos, e também a Escola da Ponte em Portugal, que há anos ensina a partir da vontade e da curiosidade do aluno. Basta ver o resultado deles e veremos o quanto fracassamos como escola.

Nosso fracasso não se dá nos IDEBs e ENEMs, mecanismos matemáticos e frios para avaliar algum tipo de sucesso educacional. Fracassamos porque não formamos cidadãos críticos, porque não inserimos com competência nossos pequeninos no universo deslumbrante da aprendizagem. Estamos preocupados com os vestibulares, com o sucesso profissional, com as burocracias e suas planilhas.

Seguiremos fracassando enquanto as faixas em frente às escolas seguirem parabenizando o aluno que ganhou bolsa em uma escola de renome, ou quando ingressam numa grande universidade, deixando nas entrelinhas que os que não triunfaram no mercado, fracassaram na vida. As faixas deveriam vir deles, elogiando as escolas que realmente os fizeram felizes na sua infância. Mas, sinceramente? Quantas de nossas escolas mereceriam uma faixa dessas?

Entretanto, não perco as esperanças. Isto porque leciono ao lado de pessoas que sonham o mesmo sonho que o meu. São educadores, diretores, professores, disciplinários e pedagogos que também anseiam por mudanças no ambiente escolar. Sabem que nada mudará de uma noite para o dia, e que não podem e nem devem revolucionar o sistema escolar num passe de mágica. Mas no dia-dia, vão plantando sementes preciosas para que no futuro as crianças de nossas escolas troquem o bocejo pelo sorriso na hora de entrar nas aulas. É com eles e por nossas crianças que não me dou o direito de parar de sonhar.


domingo, 22 de março de 2015

O prejuízo de amar

Por Adelson Vidal Alves



No inicio de tudo os homens possuíam 4 pernas, 4 olhos, 2 bocas e 2 cabeças. Sua arrogância e sentimento de autossuficiência eram tão grandes que os deuses resolveram corta-los ao meio. Desde então, sua sina seria buscar incessantemente por sua outra metade. Esta história é narrada pelo filósofo grego Aristófanes  (447 a.C. — 385 a.C), e serve como uma excelente metáfora para a busca desesperada dos homens de hoje atrás de um grande amor.

Nos dias atuais, encontrar um grande amor e iniciar um relacionamento são razões para traumas e sérios problemas existenciais. Nossa era é a era do fracasso dos relacionamentos, dos amores incompreendidos, da mercantilização dos sentimentos. Há mais divórcios que casamentos.

Mas qual a razão de nossos fracassos em relação a nossa principal referência de felicidade? Por que o amor foi tão banalizado? Por que ele faz mais mal do que bem aos que ousam em investir nele.

O que sabemos é que amar virou sinônimo de posse, motivo pelo qual os crimes passionais são tão comuns. O outro vira propriedade, e como posse, ninguém gosta de perdê-la. Não é ausência da pessoa que mais faz os amantes sofrerem, mas sim o sentimento de que a sua ex-propriedade em breve encontrará um novo dono. Em nossos dias, também, o próprio ser humano se tornam coisa, verdadeiras mercadorias. Não há expectativa de futuro, vale gozar o dia-dia, o momento. Nada de promessas de amor eterno, pois amar está relacionado a sua satisfação própria, no momento em que tal satisfação desaparece, não há nada que sustente este relacionamento.

Ingressar numa relação a dois, com a ilusão de proteção, cuidado e segurança, é um péssimo investimento. Os riscos de sofrimento são muito maiores que o de bem estar. Namorar, casar, se relacionar guardam mais momentos de atrito do que de harmonia. Sua chance de frequentar um psiquiatra aumenta em milhões.

A solidão não é o mal do século, como certa vez disse um poeta do Rock, ela é oportunidade. Chance ímpar de se viver plenamente a liberdade, de conhecer-se a si mesmo, vivendo apenas com sua própria metade. A falta do telefonema em tempos difíceis, da carícia nos momentos de tristeza são plenamente compensadas pela leveza da vida sem os problemas relacionais. Você é o único a tomar as decisões, tem a segurança de que os sofrimentos da paixão lhes serão poupados, já que temos a certeza que a longevidade dos relacionamentos é guardada para uma porção pequena de escolhidos. Em geral, todos irão sofrer com a perda do amado, todos iremos romper ou esfriar o que um dia foi o amor original. Enfim, em nossos tempos, a estabilidade não está no lar ou na família, mas no egoísmo de nossa solidão, o melhor dos mundos para quem não quer chatear-se.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Devemos sim, falar de impeachment

Por Adelson Vidal Alves



Quando o PT resolveu, nas eleições de 2014, abrir um discurso de divisão do país, seja entre pobres e ricos, patrões e trabalhadores ou paulistas e nordestinos, acabou por plantar a semente de um tempo que ficará marcado por polarizações radicalizadas, intolerância, ódio e rebaixamento do debate político. Nada disso fará bem o Brasil.

Os dois atos marcados para os próximos dias (dia 13 pró-governo e dia 15 anti- governo) revelam exatamente esta realidade de fragmentação da nação, fomentada por um partido e sustentada pela incapacidade de um governo de chamar o país para um pacto nacional. Antes, recorre ao mesmo erro, elegendo inimigos da nação, alardeando golpes e inventando narrativas fantasiosas.

Dilma a cada dia se isola mais. A operação lava Jato revela um mega esquema de corrupção em nossa principal estatal, onde Dilma foi presidente do Conselho Administrativo. Na economia vivemos estagnação e aumento da inflação, com ajustes sendo feitos na carne dos trabalhadores.  O Congresso já não consegue diálogo com o Executivo, e até mesmo o PT, partido da presidente, começa a se distanciar dela. O clima é de ingovernabilidade, fator que oferece risco a estabilidade política  e democrática do país.

Diante deste contexto, os atores sociais apresentam suas soluções. Há quem diga que o momento é de sangrar Dilma pelos quatro anos, e derrotá-las nas urnas em 2018. Porém, o sangramento não será só na presidente, atingirá, principalmente, o país, especialmente os mais pobres. Deveríamos esperar todo este tempo assistindo passivamente Dilma afundar e com ela o Brasil?
A possibilidade de um impeachment, levantada não por golpistas, como grita a militância petista, mas por juristas e uma parte significativa da militância democrática, seria uma saída interessante para que a nação pudesse rearticular um novo núcleo de poder, capaz de dar os passos necessários para superarmos a crise. Dilma e o PT não tem condições políticas e morais para unir novamente a nação, e seguir o caminho certo para a estabilização econômica e política do Brasil.

Se a situação jurídica de Dilma ainda nos obriga uma relativa cautela sobre a abertura de impeachment, não significa que não devamos falar sobre o tema. Devemos sim, falar do impeachment, conversar abertamente sobre uma alternativa que é constitucional, e em muitos casos, como o já vivido por aqui, ajuda a se arrumar a casa, impedindo uma falência nacional absoluta, risco real caso Dilma siga à frente de nossa República.


Não há golpe em curso, não há possibilidade de intervenção militar, quem diz isso, ou faz por desonestidade ou por ingenuidade de um incauto.  O momento é discutir a interrupção do mandato de Dilma pela via das leis, pela via constitucional, sob as bênçãos do Estado de direito. O momento é de discutir uma solução para o terrível momento em que vivemos. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Adeus ao MST

Por Adelson Vidal Alves



Todo movimento social nasce de uma determinada demanda social histórica. Quando esta demanda é atendida ele precisa se reinventar ou simplesmente desaparecer, caso contrário, irá subsistir com discursos anacrônicos e arcaicos. É o caso do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que nasceu em 1984, e depois de viver seu auge no final da década de 80 e toda a década de 90, vê hoje sua razão de existir desaparecer.

O Brasil em que aparece o MST era um país em transição democrática, com a ebulição de uma sociedade civil que renascia com novos atores sociais. Os trabalhadores do campo, que ficaram fora do pacto varguista e foram pouco atendidos na modernização conservadora do regime militar, apareciam no cenário com significativa força, organizando-se em torno de um movimento que propunha a ocupação de terras improdutivas como forma de pressão sobre os governos. A estratégia até que funcionou, de 1995 até hoje foram assentadas  cerca de 1.262.127 famílias. Sem o MST, dificilmente isto teria acontecido.

O fato, porém, é que desde a criação do MST, o Brasil vem passando por um profundo processo de urbanização e modernização de sua produção agrícola. Neste período milhões de pessoas deixaram o campo e migraram para as cidades, deixando suas terras para trás. Isso porque nosso país reconfigurou seu perfil econômico, cultural e espacial. Não somos mais um país agrícola, há tempos nos concentramos nos grandes centros urbanos. A reforma agrária, pensada como democratização da terra, deixou de ser uma necessidade. A divisão das terras já foi feita, e se seguirmos tal distribuição, estaríamos apenas dando sobrevida as famílias beneficiadas com esta política pública, mas com o tempo, seu destino será o de abandonar a terra e se destinar a cidade.

O problema da pobreza rural já não se resolve mais no campo. Tivéssemos um governo inteligente, o INCRA e outros órgãos estatais responsáveis pela reforma agrária estariam trabalhando pela regularização fundiária dos assentamentos que deram certo, fornecendo condições técnicas e financeiras para permanecerem de pé. Caberia ao governo, ainda, trabalhar na reforma urbana, a fim de receber a população do campo que chega, garantindo-lhes mecanismos de adaptação à vida urbana.

Mas o governo federal pensa como o MST, prefere sair distribuindo terras às famílias pobres do campo mantendo-as no campo com programas sociais assistencialistas. Uma opção burra e ineficiente.

Sob a atual situação do país, o MST não tem por que existir. Se existe é porque vive a se amparar em outras bandeiras, como o uso do agrotóxico nos alimentos. Além do mais, sustenta-se na ilusão dos camponeses pobres, aproveitando dos seus sonhos para doutrinar e recrutar soldados para uma causa inexistente. No fim, acabam como massa de manobra, votando no PT e defendendo os interesses da cúpula do movimento.

O MST é hoje uma organização autoritária, inspirada no marxismo-leninismo, cupulista e com financiamento duvidoso. Sua existência é anacrônica, desnecessária e até prejudicial para o processo de amadurecimento democrático do país. Passou a hora de darmos adeus ao MST.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Saudades do Carnaval

Por Adelson Vidal Alves



Sinto saudades do carnaval. A festa originalmente cristã- no qual os cristãos se empanturravam de comida antes da abstinência da quaresma- mas que foi se tornando a maior festa popular do planeta. Saudade das marchinhas, que cantavam a tristeza da jardineira, o choro do bebê e a falta de sinceridade da Aurora, tudo na mais sofisticada simplicidade da festa.

Saudades de quando a rua era o palco principal, e não os camarotes milionários da Sapucaí ou os clubes fechados com ingressos caríssimos. Saudades de quando a falta de hierarquia da festa dispensava artistas e celebridades na frente das baterias, todos eram anônimos, festejando a abolição temporária da divisão de classes da sociedade.

Saudades do bloco das piranhas, que encarnava a inversão de valores, com pobres vestindo se de nobres e homens se vestindo de mulher. Saudades de quando as assimetrias físicas marcavam a celebração do humor festivo, hoje substituído pela paranoia de homens e mulheres modelados para um corpo perfeito a ser pateticamente exibido.

Saudades dos foliões e seus tambores, a se fazer parte de um todo, no mesmo chão. Hoje o que se vê são trios elétricos com suas alas VIPs, tocando músicas eletrônicas,  em disputa com carros sonorizados por funk e sertanejo, ritmos estranhos à festa.

Saudades de quando a referência da mulata brasileira não era vulgarmente erotizada por uma emissora de televisão, que troca suas modelos por muitas delas não terem o rostinho de princesa no qual o padrão estético hoje exige.

Saudades das serpentinas, das máscaras, dos confetes, dos abraços ao invés de vandalismos e acertos de contas de gangue. Saudades do carnaval que encarnava os valores comunitários, que festejava a alegria, que interrompia a dura realidade da vida socialmente injusta para encenar a verdadeira comunidade solidária.


Hoje, porém, esse carnaval se perdeu, virou apenas mais uma balada. Saudades, muitas saudades.