domingo, 5 de janeiro de 2014

DIREITO A SER DIREITA

Por Adelson Vidal Alves

Lobão foi uma das personalidades que mais encantou a juventude rebelde da década de 1980. Hoje, deu uma significativa guinada à direita, daquelas de acusar comunistas de antropofagia infantil. Ganhou, assim, o direito de integrar um grupo de pessoas odiadas por uma estranha militância esquerdista, disposta a trabalhar diariamente na difamação e demonização de quem considera inimigos da humanidade. O roqueiro veio somar a Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, Luiz Felipe Pondé e Diogo Mainardi na lista negra deste grupo.

O exemplo de Lobão mostra a relação turbulenta de parte da nossa esquerda em relação à democracia. A existência de uma direita democrática, obediente às regras do jogo constitucional, não só é legítima como também positiva. Haja vista que uma democracia madura e moderna não pode funcionar em uma única direção, vindo assim a ser vulnerável na construção de mitos e lideres messiânicos. Deve ser, antes de tudo, plural, diversa e fundada na construção de consensos entre os vários atores coletivos da sociedade.
Criar uma polarização de ódio contra a dita “direita” é coisa de quem ainda não se acomodou ao jogo político complexo que caracteriza as sociedades ocidentalizadas. Ainda montam trincheiras em sua “guerra de movimento”, quando nosso tempo exige “guerra de posição”, negociação e capacidade de diálogos plurais na busca de soluções conjuntas para as mazelas que nos assolam. Ser de direita, ter uma visão conservadora ou moderada, não pode e não deve ser vista como um desvio de caráter, mas tão somente visão diferenciada e representativa de um grupo que se move legitimamente numa vida social de liberdades políticas e civis.
Não é saudável fortalecermos concepções políticas dogmáticas, incapazes de enxergar virtudes nos seus adversários. Concepções que nos apresentam alternativas simplistas do tipo “socialismo ou barbárie” como se a sofisticada vida democrática não nos oferecesse caminhos civilizatórios alternativos.
O esforço em nossos dias deve ser para fazer triunfar uma nova ordem social mais justa e solidária, e que consiga incorporar em suas estruturas elementos vindos de todos variados campos ideológicos, desde que em perfeita harmonia com os valores da democracia.
Mesmo a direita, conservadora por natureza, pode contribuir na criação de um novo mundo. Em seu formato democrático ela se torna necessária para que as relações políticas não se curvem a comportamentos autoritários ou salvacionistas. O que deve prevalecer é a certeza de que a imposição de qualquer projeto trataria de recuos organizacionais da vida social. Os caminhos devem ser construídos pela política, com a interação e a boa dialética do cotidiano em que podem trabalhar esquerda e direita.
 

3 comentários:

  1. Para alguém que defende o socialismo ( regime que depende do totalitarismo) vir fazer mea-culpa e falar de valores democráticos e morais inerentes apenas a Direita, ainda que defendendo mensaleiros, pedindo um julgamento com um colegiado composto apenas por partidários de esquerda, defender quem quer impor o marco civil, leis de restrições a mídia, dar mais volume e poder ao estado, falar de democracia e propor uma conciliação politizada, sinceramente isso soa a piada de mal gosto, soa a hipocrisia, até porque a Direita politica não existe mais nesse país e os defensores do pensamento liberal são perseguidos em todos os centros acadêmicos por culpa da irracionalidade dos defensores do socialismo , que nunca observaram os direitos iguais. Agora que estão vendo a esquerda afundando na própria lama que criou, escrever um texto supostamente conciliatório querendo mostrar que existe uma esquerda moderada, pensante e democrática, desculpe, mas isso é apenas mais uma face do vitimismo, para comprovar isso é só ler alguns dos seus próprios textos e notar a contradição.

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  2. Não defendo mensaleiros e não pretendo fazer conciliação alguma. Me considero um democrata e acredito que o texto está em perfeita harmonia com tudo que tenho defendido. Concordo com vc que não existe no Brasil uma direita organizada e forte, mas penso que a democracia, valor a qual está sempre no centro de minhas defesas, exige a existência de pensamentos diferentes. Sou de esquerda, e advogo uma esquerda constitucional e democrática.

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  3. A Democracia é isso mesmo, a capacidade de diálogo e coerência entre posições diferentes. Parafraseando Voltaire: "Apesar de não concordar com uma única palavra do que dissestes, eu defenderia com a minha própria vida o seu direito em proferí-las". Excelente artigo, Vidal!

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