terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O triunfo do amor líquido

Por Adelson Vidal Alves



Zigmunt Bauman, o famoso sociólogo polonês, cunhou o termo “modernidade líquida” para caracterizar os tempos atuais onde tudo perde solidez, e as pessoas, valores e sentimentos ingressam em um grande mercado, onde as mercadorias são rapidamente descartadas ao gosto liquido do consumidor. Diante desse descarte constante de coisas, nem mesmo o mais supremo e metafísico dos sentimentos escapa. O amor, que desde sempre fez casais enamorados suspirarem em noites enluaradas, também seria um objeto na sociedade dos consumidores. A pessoa amada apenas atenderia aos padrões temporários do gosto do consumidor, e como tudo é líquido e se desfaz rápido, essa logo deixará de seduzir aquele que consome, será trocada por outra mercadoria. A era dos amores duradouros e do “eu te amo pra sempre” teria chegado ao fim (essa tese é desenvolvida no livro “amor líquido” do mesmo autor polonês).

Tal avaliação, claramente pessimista para os românticos, se levada ao pé da letra, nos faria desistir de costumes e tradições que sustentam a maior parte das sociedades ocidentais. Nisso, não devemos subestimar o papel de nossa cultura judaico-cristã, que moldou o padrão monogâmico dos relacionamentos e deu graça divina a união entre dois seres, supostamente unidos pela vontade do criador.

No entanto, sob a ótica de psicanalistas, sociólogos, antropólogos e filósofos, o amor metafísico dá lugar a análises mais concretas, e são desvendados como mecanismos da natureza humana e sua cultura. Nesse caso, não seria o caso de falar em amor no termo mágico, mas em amores, inventados pela subjetividade, construídos sob obrigações sociais, exigidos pelo medo da solidão e a carência, formados para se exibir como núcleo da felicidade. Nesse mundo amoroso, difundido pela virulência das novas redes sociais, ele se torna o grande teatro sentimental, e quem não ama tem o inferno dos pagãos descrentes, afinal, não amar é sempre sinônimo de frustração e mau humor, nunca de olhar crítico.

Mas o que a realidade grita aos nossos olhos é o triunfo absoluto do amor líquido, fundado nos alicerces frágeis da estética e do êxito material-financeiro. Como as pessoas são mercadorias, elas precisam agregar valor, para serem melhores consumidas nas sociedades dos consumidores.  A internet vende tais pessoas, com a promessa de lhes pouparem o drama do olho no olho e o trauma da rejeição, tudo acabaria com um simples offline.


Como o ser humano é cultural, ele inventa mundos, dá sentido ao que a vida se apresenta como sem sentido. Por isso as religiões, os rituais fúnebres, as supertições de fins de ano, a música, a arte. Tentar eliminar essa dimensão humana seria, a principio, uma perda de tempo. Na consciência alienada, muita coisa sai das nossas mãos para uma realidade supraterrestre. Nós, humanistas, temos dificuldade em lidar com isso. Talvez estejamos errados. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mais um tiro pela culatra

Por Adelson Vidal Alves

















Dilma não é uma boa negociadora política. É mandona, autoritária, não tem o borogodó para fazer os afagos que exigem nossa democracia tropical. Arrogante, se acha a eterna e exclusiva comandante do barco, mesmo quando este esta à beira do naufrágio. Numa dessas, desprestigiou seu vice, Michel Temer, o reduzindo a bombeiro, com a tarefa única de apagar os incêndios que ora o PMDB aprontava no parlamento.

Hoje, fragilizada pela possibilidade de impeachment, vem sendo alvo de chantagens e pressões de todos os lados. Michel Temer, dispondo do momento favorável, resolveu-lhe cobrar, em carta pessoal, o desprestigio que vem sendo lhe oferecido. A epístola combina lições do jogo político com um apelo magoado por reconhecimento. O Planalto, em mais uma prova que não podemos subestimar sua capacidade de faze bobagem, providenciou o vazamento da carta, que jogou Temer para os braços da oposição pró-impeachment.

A ideia do governo era rotular Temer como um conspirador golpista, um traidor. Mas a tentativa saiu como um tiro pela culatra. Isso por que Temer não é um Ministro rebelde, ou mesmo um deputado da base aliada contrariado pela falta de atenção governista. Mas sim Vice-Presidente da República, alguém com quem Dilma divide o êxito eleitoral e suas responsabilidades de governo. Foram eleitos juntos na mesma chapa. Sendo assim, é impossível separar o governo de sua imagem.


O jeito atrapalhado do Planalto lidar com a política empurra a presidente para o isolamento, que agora vê sua base em conflito. Subestimou a força de Temer, e agora tem diante de si a tarefa urgente de recompor a aliança com Temer e o PMDB, com o risco eminente de ver uma parte de seus aliados mudarem de lado na batalha do impeachment. Ai as mudanças de cenário podem ser negativas para Dilma. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A questão do Estado

Por Adelson Vidal Alves



As crises costumam trazer a tona o debate quanto ao papel e a natureza do Estado. Nestes momentos, até mesmo os advogados do livre mercado e do Estado mínimo, recorrem a ele como forma de primeiro bote salva-vidas. Mas afinal, o que é o Estado? Qual sua natureza? Precisamos dele? Podemos sonhar com um mundo sem Estado?

Durante a história, vários pensadores teorizaram sobre o Estado. Thomas Hobbes, teórico do absolutismo da Idade moderna, tratava o poder estatal como regulador necessário a uma natureza humana egoísta pronta a eliminar uns aos outros. Em sua obra clássica “o Leviatã”, este Estado é fruto de um pacto que elimina liberdades individuais, entregue a um soberano com funções rígidas de controle e intervenção.

Para Hegel, o Estado é visto como a plenitude do desenvolvimento espiritual. A síntese final de um desenvolvimento histórico guiado por Deus. No Estado repousaria a organização absoluta da vida universal. Em Marx, ele é a organização de poder que se estabelece a partir das bases materiais de produção de uma determinada sociedade. Ele existiria em função da dominação de uma classe sobre outra, sendo a expressão política da opressão de um grupo sobre outro, o que fez Marx projetar uma sociedade livre tendo como condição o fenecimento do Estado.

Os dois primeiros pensadores tem no Estado uma instituição permanente, enquanto Marx condiciona a emancipação humana ao desaparecimento deste poder político. Os marxistas, então, tem um olhar negativo sobre a política, e defendem uma revolução social que seja capaz de criar um mundo de “autogoverno”. A história, no entanto, nunca se aproximou de algo neste sentido. Mesmos nos regimes que se reivindicaram inspirados em Marx, o Estado aumentou de tamanho, ao invés de diminuir, como propunha o filósofo alemão. Só que, ao contrário do que os marxistas ortodoxos imaginavam, o Estado não aumentou em autoritarismo, mas seguiu, nas sociedades ocidentais, um caminho democratizante, a ponto de se abrirem às conquistas das classes subalternas. Ele já não é mais o “comitê executivo das classes dominantes”.

As forças democráticas, em geral, estão convencidas da impossibilidade de se avançar caminhos civilizatórios por atitudes que  violem a via institucional. Isto por que, o Estado democrático de direito amadureceu pela ação direta de variados atores sociais, sobretudo, os grupos de baixo. O caminho para uma transformação social só é aceita pela via do reformismo, capaz de alterar o jogo de forças e de forma gradual estabelecer uma nova cultura de vivência, o que por sua vez forçará a renovação, ou até a abolição e criação de novas instituições.

A direita precisa de um Estado, ainda que restrito em suas funções. Mas a esquerda, que de alguma forma especula um mundo com mais liberdade, pode imaginar e sonhar com o fim do Estado. Mas esta possibilidade deve ser construída, com a ação cotidiana de democratização dos organismos modernos de Estado. Eles hoje estão abertos a criação de consensos pacíficos, formados pela luta e pelo debate de grupos socais inseridos no jogo democrático. Para usar as palavras de um dos principais documentos do Partido Comunista Italiano, deve se pensar a nova sociedade como uma “grande marcha por entre as instituições”, palavras estas que se contrapõem a estratégias como a do maoismo, que coloca a violência como via para o socialismo.

O debate deve seguir, mas o atual momento histórico exige a compreensão de que a evolução histórica ainda  necessita da existência de um Estado, aberto a pressões populares e com seu poder exercido de forma estendida a outros espaços da sociedade civil.



quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O mito Palmares

Por Adelson Vidal Alves

No ano de 1971, em Porto Alegre, uma organização negra, chamada Grupo Palmares, fez talvez a primeira comemoração do dia 20 de Novembro, data da morte de Zumbi, principal líder do maior quilombo da história brasileira. Zumbi foi capturado, morto e degolado no referido dia do ano de 1695, na região da Serra da Barriga, na capitania de Pernambuco, onde se localiza hoje o estado do Alagoas.  

Em 2003, no dia 9 de Janeiro, a lei 10.639 inclui o Dia Nacional da Consciência Negra no calendário escolar, ao mesmo tempo em que obrigava o ensino da história e cultura afro-brasileira.

A exaltação e evolução da data como referência da cultura negra se sobrepôs ao 13 de maio, data da abolição da escravidão, que até então era tida como centro das reflexões do movimento negro organizado. Vista como uma “falsa abolição”, a data é criticada por celebrar uma libertação que não houve.

Na verdade, a abolição da escravidão é tida, historicamente, como fruto de um conjunto de fatores econômicos, políticos e sociais, que não envolveram apenas a resistência negra, mas também a solidariedade de brancos no movimento abolicionista, que ganhou o mundo e pressionou o único país independente da América a ainda adotar a escravidão a se livrar dela num ato legal. A consciência negra, do Dia 20 de novembro seria, assim,  celebração unicamente do povo negro, do protagonismo exclusivo em suas lutas. Trata-se da substituição de uma data anti-racialista, para uma data racialista.

Frente a data, o movimento negro mistifica um herói: Zumbi. Tratado como líder de um quilombo democrático e que combateu a escravidão. Ele é tido como uma figura mítica, e Palmares uma metáfora do paraíso negro, liberto da opressão branca.

Só que a história mostra Palmares de uma forma bem diferente. Ao contrário de uma sociedade igualitária, prevalecia uma organização estamental, com as lideranças do grupo gozando de privilégios. Bem diferente de combater a escravidão, Palmares se relacionava com colonizadores portugueses e mantinha escravidão no seu território, o próprio Zumbi teve escravos particulares. Zumbi mandava capturar escravos e mulheres, estas últimas eram executadas caso contrariassem a liderança do Quilombo.

No dia da Consciência Negra, será comemorado um Palmares que não existiu historicamente, mas que precisa existir nas mentes, a fim de atender os projetos de movimentos e ONGs racialistas.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

BNCC: o fim da temporalidade no ensino de história

Por Adelson Vidal Alves

March Bloch certa vez escreveu: “a história é a ciência do homem no tempo”. Já Fernand Braudel dizia que “O historiador nunca se evade do tempo da história”. Homens como eles, pensadores e cientistas da história, sabem muito bem que a temporalidade é algo precioso na vida do historiador, e de quebra, no ensino da história.

No entanto, tal compreensão vem faltando aos “especialistas” do MEC, que vem propondo uma reforma radical no conteúdo do ensino de história,  através da Base nacional Comum Curricular (BNCC) que em sua essência, vai abolir a noção de tempo histórico. Isto por que, com a desculpa de combater o eurocentrismo, os reformadores se propõem a abolir o sistema clássico francês de divisão da narrativa histórica (antiguidade, Idade média, Idade moderna e Idade contemporânea). No lugar, entraria o estudo de culturas e “mundos” próprios de alguns povos, sobreduto o dos “ameríndios” “africanos” e “afrobrasileiros”. O aluno mergulharia em compreensões de realidades culturais cercadas por muralhas étnicas, raciais e políticas. A história universal, moldada pelos feitos da tradição greco-romana, da Renascença, do cristianismo da Idade Média, da Reforma protestante, das revoluções liberais na Europa, simplesmente desapareceria dos livros de História. No lugar, a total subserviência ao multiculturalismo, sempre disposto a fragmentar.

Tamanho absurdo recebeu críticas até mesmo do ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro. Em Outubro, Janine fez suas primeiras críticas, citando a ausência do ensino da Inconfidência Mineira, rebelião colonial que nos legou a figura de Tiradentes. Vejam só! Teríamos um herói nacional, com feriado e tudo, sem sequer ser citado nos currículos de história. Neste caso, faria todo o sentido um jovem questionar o feriado de 21 de abril, afinal “quem é Tiradentes?”.

Janine, que retardou a apresentação do BNCC de história, ainda, criticou o texto original que “ignorava quase por completo o que não fosse Brasil e África”. O ex ministro também alertou para o perigo de se “descambar para a ideologia”.

Enfim, o MEC se propõe a mutilar a História mundial, ignorar a temporalidade como elemento de construção da identidade histórica, e se concentrar nos estudos de realidades recortadas historicamente, retirando dos alunos o direito de compreenderem a totalidade, os processos de rupturas e permanências que construíram a história do mundo. Um verdadeiro desastre. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sartre, Beauvoir e o jornalista apressado

Por Adelson Vidal Alves


O jornalista Aurélio Paiva, dono de um jornal de grande circulação no Sul fluminense carioca, publicou audacioso artigo em que diz que a escritora Simone Beauvoir e o filósofo Jean Paul Sartre seriam defensores de pedófilos, assim como praticantes de uma vida sexual que tratava as mulheres como objeto.

Aurélio recolhe suas informações básicas do livro “Uma relação perigosa” da historiadora escocesa Carole Saymour-Jones. Para sustentar sua narrativa, o autor se apega, ainda, em cartas póstumas de Beauvoir, assim como artigos e manifestos publicados pelo casal de intelectuais.

No entanto, algumas questões sérias foram colocadas sem a devida cautela que se exige de quem escreve um texto público, ainda mais contendo rotulações e acusações tão graves. Deve-se, também, compreender que a história não é feita por revelações mágicas  vindas de fontes solitárias que atestariam uma “verdade, pelo contrário, a história é fruto de um trabalho interpretativo do historiador, que se realiza a partir das fontes, e apesar da sua objetividade científica, ele sempre fala a partir de algum lugar. Sendo assim, tomar uma única obra com pequenos segmentos descontextualizados não é a melhor maneira de se contar a vida de uma pessoa.

Mas vamos ao artigo, intitulado “mulheres-objeto de Sarte e Simone de Beauvoir”. De início, destaco o cuidado de Aurélio a reconhecer que não há documentado qualquer caso de pedofilia envolvendo Sartre ou Beauvoir. Sim, eles tiveram relações sexuais com jovens de 16 e 17 anos, mas sempre com as suas devidas concessões. Para associar o casal à pedofilia, Aurélio teve que recuperar um manifesto assinado por ambos, onde se fazia a defesa da diminuição da idade de concessão sexual, na França daquele tempo, a idade era de 15 anos. 

É de se lembrar que Beauvoir sempre se posicionou pela emancipação de jovens como protagonistas de sua vida sexual, deixando de serem vítimas indefesas. Se isso é certo ou não, a história é outra, mas isso não significa que eles sejam pedófilos, assinaram um documento propondo a mudança de uma lei (quem assina um manifesto pedindo a legalização da maconha não é necessariamente maconheiro). É oportuno registrar que não foram apenas Sartre e Beauvoir que assinaram a petição, nomes de intelectuais de peso, como Deleuze e Foucault, também assinaram.

No artigo ainda há pequenas menções sobre, no mínimo, um silêncio dos dois em relação ao nazismo, ainda que não se repita o absurdo propagandeado de que Beauvoir era ativa colaboradora da doutrina nacional-socialista. Aurélio Paiva cita o episódio quando Simone de Beauvoir trabalhou na Rádio AVFM, controlada por nazistas. Por lhe faltar o sotaque de historiador, talvez tenha faltado a Aurélio compreender a realidade ambígua da França ocupada, o mesmo erro que muitos cometeram ao taxar de nazista o papa emérito Bento XVI, por este um dia ter sido membro da juventude nazista.

Muitos pesquisadores, como Ingrid Galster, professora de literatura alemã e estudiosa da vida de Beauvoir, garantem, depois de estudar os discursos de Beauvoir na rádio,  que não há nenhuma evidência que a escritora tenha se envolvido com o nazismo, diferente do filósofo Martin Heidegger. A posição é acompanhada pela professora de Harward, Susan Sulelman que garante não haver nenhuma prova contundente de alguma aproximação de Simone com a ideologia nazista.


Sobre Beauvoir e Sartre, sabemos que tiveram um relacionamento duradouro e livre. Não se trata de uma união aos moldes cristãos, mas acordado entre as partes, firmado sob convicções de amor e liberdade. Se erraram ao praticar algo que condenaram, isto está longe de denegrir suas imagens, construídas sob suas competências intelectuais e militantes. Estes dois pensadores contribuíram e muito para a evolução do pensamento ocidental, e nada mais infeliz que um jornalista apressado tentando desconstruir o que há séculos testemunha a história da filosofia. Há de se ter cuidado, não só para não manchar a índole de pessoas, mas, principalmente, para não deseducar a opinião pública com informações mal colocadas, para um jornalista, trata-se de um erro grave. 

Link para se ler o artigo de Aurélio Paiva: http://diariodovale.com.br/colunas/mulheres-objeto-de-sartre-e-de-simone-de-beauvoir/

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Não me lembrem de Deus, sou agnóstico

Por Adelson Vidal Alves



Nos tempos mais antigos a religião fazia todo o sentido. Como explicar a complexidade do universo, o surgimento da inteligência, o equilíbrio que relativamente preserva a existência da vida planetária? As explicações mágicas acabavam tendo supremacia, por isso o advento dos mitos, como o de Adão e Eva, o mais próximo entre nós ocidentais. Vale lembrar que mitos não são mentiras construídas por charlatães malvados, mas narrativas próprias de um tempo, que explicam coisas e acontecimentos.

Nos nossos dias, com o avanço fantástico da ciência, muito do que a religião explicava perdeu sentido. Descobrimos que não somos o centro do universo, que no Planeta Terra somos os últimos dos inquilinos, e que se algum processo de extinção vingar, somos frágeis criaturas nas mãos da seleção natural. Então, por que a religião ainda sobrevive? Por que a grande maioria das pessoas ainda toma decisões importantes da vida baseadas exclusivamente na fé?

Uma explicação rápida e marxista diria que o capitalismo produz as condições materiais para a consciência religiosa alienada, e que o homem recusa seu protagonismo vital para deitar suas esperanças em um ser estranho a si próprio. Bastaria um a revolução social que colocasse a baixo a estrutura fabricante de alienação para que Deus desapareça. Mas tal explicação, levada ao extremo, ignora a dimensão libertadora da religião, e que ela não é apenas um lugar de pessoas dóceis e obedientes, mas também o incentivo para muitos lutarem por libertação. Os exemplos estão por ai: a revolução sandinista de 1979, feita por bispos com armas na mão. Os dominicanos brasileiros, que pagaram com a vida a resistência à ditadura. Dom Helder Câmara, Dom Waldir Calheiros, Oscar Romero, Pastor Milton Schwantes, e tantos outros são provas vivas do lado libertador da fé. Sendo assim, o fenômeno religioso é muito mais complexo que imaginamos.

Mas há aqueles que negam a fé. E eles crescem cada vez mais, segundo pesquisas. Só na China, 47% das pessoas dizem não ter fé ou religião. É verdade que a existência de Deus já não traz tanto motivo para os debates. No Brasil a grande maioria é religiosa, e como se sabe, os crentes não estão dispostos a colocar sua fé a prova da razão ou da ciência. Basta crer. O ateu, também, nega veementemente Deus, e nem mesmo se um anjo aparecesse com trombetas e o levasse a um passeio pelas belezas celestiais ele estaria disposto a rever sua opinião. Afinal, poderia ser uma simples alucinação.
No entanto, entre ateus e crentes, há uma categoria, digamos intermediária: os agnósticos. A terminologia significa, etimologicamente “não conhecimento”, e na sua filosofia está a afirmação de que mesmo que Deus exista, ele não pode ser testado pela razão e pela ciência. Então, seria perda de tempo pensar na sua existência, pois ela não pode ser negada ou afirmada, a não ser pela fé, dos dois lados.

O ateísmo militante repete o fundamentalismo religioso, e tenta apresentar ao público a impossibilidade de Deus. De fato, o mundo físico não apresenta nenhuma evidência de Deus, pelo contrário, cada vez mais vemos sinais de não planejamento no universo, o que fala contra qualquer proposta de um ser supremo, inteligente e governante. Mas como dizia Carl Sagan “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. Isto é, pode ser que no fim da vida, mesmo diante desta improvável possibilidade de existência divina, sejamos surpreendidos com alguma energia cósmica, incapaz de ser captada pela realidade empírica. Os agnósticos, assim, são aqueles que estarão um pouco mais prontos que os ateus caso esta surpresa aconteça.


No final, tudo é uma aposta. O ateu pode quebrar a cara ao chocar-se com a luz divina no fim da vida, e o crente pode ter dedicado uma vida toda, rejeitando prazeres e sacrificando escolhas, por nada. Creio que o agnóstico, ao rejeitar certezas, faz o melhor caminho. Simplesmente resolveu caminhar sem pensar em questões que não pode resolver aqui. Afinal, não custa nada esperar pra saber a verdade. De preferência, esperar bastante.