segunda-feira, 30 de maio de 2011

Deus nos Livre de um país evangélico

Pastor Ricardo Gondim

Belíssimo texto do Pastor Ricardo Gondim, um grande cristão

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.
Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.
Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).
Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.
Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?
Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?
Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.
Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.
Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?
Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.
Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.
Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.
Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.
Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.
O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.
Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.
Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Foice, o Martelo e a Moto Serra

Por Adelson Vidal Alves

A Câmara dos deputados aprovou na noite de ontem o nefasto relatório de Aldo Rebelo (PC do B) que altera as regras do código florestal. O principal mecanismo legal de proteção das florestas brasileiras vem sofrendo sérios ataques por parte dos ruralistas que querem a todo custo estender sua produção sem nenhuma preocupação com o bem estar da natureza.
Reprovado por mais de 90% da população brasileira, pela comunidade cientifica e pela maioria absoluta dos movimentos de pequenos produtores, o novo código florestal se integralmente aprovado no Senado e sancionado pela presidenta Dilma já representa um dos maiores retrocessos brasileiros em questão de legislação ambiental. Por sua nova redação são flexibilizados a exploração de Áreas de Preservação Permanentes e Reservas Legais, que eram protegidas como forma de evitar desequilíbrios ecológicos e tragédias naturais. Anistia desmatadores e desresponsabiliza reflorestamentos. O pior e mais macabro é a descentralização da legislação sobre meio ambienta que passa a ser responsabilidade dos estados onde a pressão ruralista pode ser maior.
O deputado comunista, capacho das classes dominantes do campo, impôs não somente uma derrota a um modelo de desenvolvimento sustentável como expôs grande parte da militância de seu partido que não entende a metamorfose vergonhosa que levou um partido dito socialista a servir subalternamente aos interesses do agronegócio.
A luta ainda não acabou. O governo promete vetar parte do projeto e ele ainda tramitará no Senado. Resta recompor as forças, mobilizar a sociedade e denunciar os agentes públicos que de forma paradoxa discursam a favor do desenvolvimento e agem contra os pobres e a sustentabilidade do planeta. Aldo é este traíra e não merece nem mais um voto dos trabalhadores e do povo, sua nova base eleitoral agora é a mesma de quem mata por propriedade e é contra a PEC do trabalho escravo. A cúpula do PC do B vergonhosamente apóia tamanho descalabro.

domingo, 22 de maio de 2011

O triunfo do sindicalismo canalha

Por Adelson Vidal Alves



O ato de filiação do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos Renato Soares ao PDT coroou a triste tragetória de um ex sindicalista combativo que migrou para as fileiras do sindicalismo de negociata. A ida de Renato para o PDT nada tem a ver com trabalhismo, conceito que mal deve saber o significato , o que está por tras de tamanha manobra oportunista é o ingenuo e bizarro sonho de se tornar prefeito.
Dizem que o poder corrompe, mas acho que ele também cega. Será que Soares não percebeu que sua desastrosa gestão de sindicalista lhes descredenciou até mesmo para candidato a sindico de prédio? Será que não percebe sua trágica atuação como cabo eleitoral, onde todos que receberam seu apoio perderam feio as eleições que disputaram? Ou será que é incapaz de enxergar que entre sua patética história e a de Juarez Antunes vai um mundo  de diferença?
No ato de sua filiação, Renato só pode contar com seus bajuladores de sempre, nada e ninguém que respire algo de inovador em termos políticos derramará um pingo de credibilidade a possibilidade ridicula  de um dia virar prefeito.
Sua filiação recebeu condecorações de alguém a altura de sua nova familia. O Ministro do Trabalho que abonou sua ficha é o mesmo que despejou dinheiro publico para salvar empresas sem salvar empregos e que em outros tempos chamou Lula de traira para depois se acomodar a atividade ministerial. Teve a cara de pau ainda de dizer que o PDT é o unico partido com projeto de nação para o Brasil. Praticamente surtado e vomitando besteirol Lupi é a cara da nova casa de Renato, uma mistura de oportunismo e sindicalismo canalha.
Quando ainda era do PC do B fui um critico implacavel da traição de classe de Renato e sua turma. Vivi a decepção de ser tocaiado dentro da legenda por gente que  assim como Renato pensa politica com o bolso. Deixei o partido e hoje a história me faz justiça. A máscara caiu e não há quem possa dizer que não se cumpriu minha triste profecia de que Renato derrotou a Força Sindical e o sindicalismo pelego para depois devolver com os juros que lhe convém.
Sobre os rumos desta deprimente história posso dizer hoje: EU AVISEI.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Precisamos de Deus?

Por Adelson Vidal Alves

Há indícios de que nossos ancestrais Neandertal já mantinham certa ligação com o sobrenatural através de rituais fúnebres, o que sugere uma crença na vida após a morte já em tempos remotos. A presença de Deus e da religiosidade na vida humana ainda cria muitos debates, não podemos dizer com certeza como o Homem começou a crer numa entidade sobrenatural e nem quando ele passou a ganhar personalidade e atributos. O Filósofo David Hume chegou a questionar se foi Deus quem nos fez a sua semelhança, ou se vice versa.
O fato é que Deus atravessou os primórdios civilizatórios, ora com força suficiente para pautar toda uma vida social como na Idade Média , ora mais enfraquecido a partir de questionamentos filosóficos e científicos, como no Renascimento e na revolução tecnologica. É fato, porém que ele nunca desapareceu das mentalidades e permanece vivo mesmo diante de tantas teses que sustentam não haver mais a necessidade de atribuirmos ao mundo algum tipo de criador.
No período Renascentista Deus perdeu para o homem o centro das atenções humanas, com Darwin a seleção natural explicou como a vida se desenvolveu aleatoriamente durante milhões e milhões de anos e o astrofísico Stephen Hawking publicou recentemente uma obra no qual argumentava que o Universo poderia ter se auto criado, sem a necessidade de uma entidade metafísica, chegando a comparar a idéia de vida após a morte a um conto de fadas.
Tanta evolução cientifica deve ter praticamente eliminado Deus do centro de nossas vidas, certo? Errado. Recentes pesquisas demonstraram que apesar do crescimento do ateísmo ser visível, o grande criador permanece forte como regulador da vida social e parece que não irá embora tão cedo.
A ciência pode descobrir como o mundo funciona, mas nunca poderá dizer quem as faz funcionar e nem negar que alguém a faça funcionar. O alvo do conhecimento cientifico não é descobrir quem fez o mundo, tampouco dar sentido a ele, para isso existem a Teologia e a Filosofia. Veja que Hawking disse que não há necessidade de um criador para o Universo, o que não significa que ele não exista. Esta resposta vai depender da escolha de cada um de nós.
Nos tempos atuais podemos dispensar Deus das explicações sobre o funcionamento das leis naturais. Ficou provado que os relatos da criação, elaborados pelas religiões, não passam de mitos que mais explicam o caráter de cada povo que as escreve do que sobre o processo de criação em si. Se Deus fez mesmo o Universo, ele o fez pelos parâmetros evolutivos e das leis naturais descobertas pela ciência. A modernidade nos ensinou que dentro do laboratório Deus não tem espaço.
Contudo, a frieza cientifica não é capaz de sustentar um homem carente de sentidos existenciais, numa imensa solidão e sem respostas para questões relacionadas ao seu futuro, sem falar no duro cotidiano do mundo capitalista. Aí sim entra Deus. Seja Jeová, Buda ou Alá, ele aparece como o ser inominável, soberano de suas decisões e consolador de nossas aflições. A este Deus somos todos dependentes. Mesmo que por algum motivo o negamos a existência real, depositamos toda a nossa fé em qualquer outra coisa que concentre toda a nossa sede de vida. Seja o Deus de Einstein, Freud ou Jesus, ele sempre aparecerá, simplesmente porque em nossos genes há um rombo enorme de existência, que só cabe algo do tamanho que convenhamos chamar de Deus.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Apologia ao Racismo

Por Adelson Vidal Alves

No mês que lembramos os mais de 200 anos da abolição da escravatura republico um artigo que escrevi em 2010 e que trata das questões relacionadas as politicas afirmativas e o combate ao Racismo. Nele exponho as razões pelo qual sou contra o sistema de cotas raciais.


        Recentemente o STF organizou um ciclo de debates sobre a constitucionalidade e viabilidade do sistema de cotas raciais, ou seja, o ingresso em serviços públicos através de mecanismos diferenciados baseado na cor da pele.
        Os que defendem o sistema de cotas afirmaram se tratar de uma compensação histórica do Estado brasileiro aos negros, que teriam amargado séculos de escravidão, no entanto, sem ter tido políticas públicas de inclusão logo depois de esgotado o sistema escravista. Utilizam-se também de dezenas de gráficos e estatísticas que comprovariam a maioria negra nos grandes grupos excluídos do Brasil. A política de cotas seria assim uma correção estatal de injustiças históricas.
        A escravidão dos negros no Brasil foi realmente algo perverso, e permanece obviamente deixando resquícios na realidade social brasileira, mas é verdade também que não foi o único processo de exclusão social no Brasil, se assim o fosse, teríamos no país uma realidade de brancos ricos e negros pobres. Na realidade, o que reina por aqui é um capitalismo excludente, que divide nossa sociedade simplesmente em ricos e pobres.
        Os números estatísticos, utilizados pelos pró-cotistas também são extremamente falhos. Difícil saber o que cada um destes gráficos considera como sendo negro em um país cada vez mais mestiço como o nosso. Se a ciência nega a divisão racial dos seres humanos, é possível manipular estes números de acordo com os interesses de cada pesquisa, e utilizar metodologias esquizofrênicas para chamar alguém de negro e outra de branca. Se aprovadas, as cotas raciais estariam sob a mesma suspeita.
        Afinal de contas, como será possível definir quem é negro ou não é diante de tantos questionamentos científicos ao conceito de raça? Que metodologia usar? O provável é que apareça verdadeiros tribunais raciais para rotular racialmente pessoas de acordo com suas conveniências.
        Os defensores das cotas costumam também classificar de racistas seus opositores. Trata -se de uma retórica barata e cruel. De minha parte posso afirmar que reconheço o racismo brasileiro, contudo, me recuso a compará-los a qualquer realidade distinta da nossa, principalmente a dos EUA a quem os pro-cotistas teimam em tratar como exemplo. No Brasil o processo abolicionista destruiu as leis raciais, enquanto nos EUA elas existiram mesmo depois do fim da escravidão, basta lembrar a luta pelos direitos civis dos negros liderados por Martin Luther King. Os norteamericanos tiveram que conviver por anos e ainda hoje com expressões públicas e violentas de racismo, enquanto no Brasil elas praticamente inexistem há décadas.
        Há sim no Brasil um racismo cultural, caracterizados por preconceitos raciais simbólicos. Ele é percebido numa blitz policial, numa entrevista por emprego ou na mesa de um restaurante. Sua base de sustentação é exatamente o que os pró-cotistas insistem em manter, a crença da existência de famílias raciais entre os seres humanos. Em proporções diferentes foi exatamente esta crença em que se assentou o nazismo e o apartheid. Só poderemos vencer o “racismo a brasileira”, liquidando a mentalidade do senso comum que permanece racialista, ou seja, ainda acredita na existência de raças.
        Além de fazer apologia ao racismo e sustentar rivalidades raciais, o sistema de cotas é também profundamente injusto. Imagine uma sala de aula de escola pública onde convivam negros e brancos pobres. Passam eles pelos mesmos problemas sociais brasileiros, como o sucateamento da educação básica, as desigualdades sociais, a má remuneração dos professores etc. Estariam eles assim dentro de um mesmo ponto de partida na luta por uma vaga na Universidade Pública.
        As leis de cotas raciais ao contrário daria privilégios de ingresso a um aluno negro. Com qual argumento? Seria ele herdeiro do de seus ancestrais escravos de séculos passados, nutrindo assim vantagens de acesso a serviços públicos. Olhando por esta perspectiva, os alunos brancos pobres seriam penalizados pela ação de seus antecessores, os senhores de escravos. Quanta injustiça !
        Anacrônicas, perversas, racistas e injustas, as cotas raciais são muito mais que isso, são também inconstitucionais. Em seu artigo 19 reza a constituição federal "É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si” enquanto no artigo 208 "O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a CAPACIDADE DE CADA UM” e por fim o artigo 9 "Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição."       A constituição federal é assim zelosa com a igualdade jurídica de seus cidadãos, assim como deve ser qualquer constituição republicana. Se um governo garante acesso privilegiado de um determinado grupo social a serviços do Estado está ele agindo de maneira anti-republicana.
       Os governos apóiam cotas raciais exatamente por que elas não lhes compromete no dever de investir na educação pública universal de qualidade. Afinal, quem dirá que cotas raciais aumentariam o número de vagas nas universidades ou melhorariam o ensino. Pelo contrario, elas encobrem com um discurso de raça um problema que é de classe, promovido e aprofundado pelo sistema capitalista.
       Estamos a beira de dar caráter jurídico a um conceito batido, o de “raça” e continuar dividindo nossa sociedade pela cor da pele. Estaremos assim construindo um estado racial - racializador dos problemas sociais históricos do Brasil. Está na mão do STF impedir esta tragédia.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A crise da esquerda brasileira

Por Adelson Vidal Alves



           
A ascensão da esquerda brasileira ao governo central coincidiu paradoxalmente com o inicio de uma crise sem precedentes em sua história. Não se trata de perseguições e torturas como nos regimes autoritários, mas de uma desavergonhada cooptação, que praticamente eliminou a esquerda tanto nas perspectivas de poder quanto no campo da batalha das idéias.
Com espaços mínimos de debate público, reduzidos pela monopolização da mídia e a hegemonia da indústria cultural, os grandes embates ideológicos se refugiaram nas Universidades e em pequenos partidos e movimentos sociais. O povo brasileiro, desde a eleição de Lula, vive um processo de desmantelamento de suas representatividades sociais assim como um distanciamento das vanguardas de esquerda, incapazes de conseguirem falar a linguagem popular.
A esquerda brasileira que se recusou a participar do poder de forma subordinada ao capital, e que se convenceu acertadamente que o PT e os governos Dilma e Lula são administrações do grande capital, se esforçam ao máximo para manter viva o projeto democrático, popular e socialista, mas esbarram nas limitações que as condições históricas oferecem e em suas próprias limitações. Críticos ferrenhos ao governo, não conseguiram entender os mecanismos de popularidade montados pelo lulismo, e combatem de forma moralista sem perceberem que não basta ter as melhores propostas, é preciso convertê-las e viabiliza-las. Em total extremo estão as agremiações que se curvaram ao lulismo, perdendo completamente seu potencial transformador a ponto de fazer disputa interna por melhores cargos no Estado, sem se preocuparem com uma verdadeira disputa de projetos, há muito inviabilizadas pela hegemonia da dupla PT-PMDB.
Não há soluções em curto prazo. É preciso refazer caminhos, reelaborar estratégias, compreender o que é possível fazer de acordo com a conjuntura vigente, fugindo de ufanismos. O PSTU, por exemplo, testemunha uma pureza revolucionária ingênua, enxergando revolução em cada esquina, se isolando e inviabilizando a unidade. Mesmo que guarde disposição revolucionária, se torna pequeno diante da tarefa de reorganizar a esquerda a partir da construção de uma nova sociedade a partir de vitórias graduais no processo democrático. Sectários ainda acreditam na tomada do Palácio de Inverno.
No campo partidário é o Psol a grande esperança dos socialistas. Em pleno processo de construção, a jovem legenda já protagonizou grandes momentos de luta pela democracia, mas obviamente carrega riscos de burocratização e divisionismo.
Os rumos da esquerda pós-lulismo ainda são indefinidos. Ainda não podemos afirmar o papel de cada um dos partidos, dos movimentos não cooptados e da própria espontaneidade popular. Reconhecer a traição do PT e de sua conversão a ordem estabelecida já é um bom começo para se reconstruir o que Lula e seus co-partidários quase destruíram.