segunda-feira, 10 de março de 2014

Chavismo à brasileira

Por Adelson Vidal Alves



No dia 17 de Fevereiro, o Brasil subscreveu uma nota bizarra emitida pelo Mercosul. Nela, os países membros dizem rejeitar “as ações criminosas de grupos violentos que querem espalhar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela como uma ferramenta política”. Fala-se ainda em defesa da democracia e das instituições, sem tratar de forma clara o direito de livre manifestação, atacada por milícias e forças oficiais do governo. Este, pelo contrário, é tratado como àquele que vem buscando o diálogo.

A Venezuela ainda não é uma ditadura. Mantém eleições periódicas, uma Constituição legítima e um sistema político multipartidário. Contudo, já há algum tempo que o delírio do ex-presidente, transformado em ideologia, ameaça a estabilidade das instituições, que devem se curvar às diretrizes do “socialismo do século XXI”, um termo vago e que serve para justificar as decisões autoritárias do chavismo, que serviriam para acelerar o triunfo da “revolução bolivariana”.

No nosso vizinho continental, os poderes republicanos vem lentamente se convergindo para dentro do poder executivo, tornado o núcleo central das decisões do país. A imprensa e as manifestações são criminalizadas, a Assembleia Nacional, de maioria governista, tratada como correia de transmissão dos interesses do governo.

A crise que hoje se instala, não é um golpe em curso, mas resultado da grave situação do país, mergulhado em inflação, violência, desemprego e escassez de alimentos. A saída para o impasse deveria se dar por negociações, que com Maduro, transformaram-se em 20 óbitos.

Ainda sim, diante deste quadro, a diplomacia brasileira prefere oscilar entre o silêncio e o apoio discreto a Maduro. Por que um país de alta importância para o continente e com deveres democráticos não se pronuncia com dureza contra a repressão governista? Seria apenas solidariedade entre administrações que assumem afinidades?

Dilma e Lula não chegam a um Hugo Chavez. Mas não podemos subestimar sinais administrativos que nos fazem lembrar o caudilho morto em 2013. A articulação para denegrir a imprensa, desacreditar o Poder Judiciário, fazendo de seus parlamentares portadores de desobediências e provocações às decisões judiciais, o aparelhamento dos movimentos sociais, o recurso de compra de votos para aprovação de projetos de interesse governamental, feito crime pela AP 470 e a insistente tentativa de tentar impor reformas por fora dos caminhos normais da democracia mostram a face de nosso “chavismo à brasileira”.

Nossa cultura e história, de certo modo, ainda nos torna imunes a uma conversão institucional a ideologias autoritárias. A complexidade da sociedade civil brasileira, assim como a estabilidade de nossos organismos republicanos, ainda guarda forças para resistir a medidas que ponha em risco nossa democracia. Mas não custa nada, olhando para o exemplo vizinho, nos policiarmos contra assanhamentos autoritários, que nos últimos dez anos vem se mostrando constantes no Palácio do Planalto.


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