segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Conhecendo Gramsci: TEXTO 1

Resolvi escrever três artigos em que tento introduzir aos interessados a obra do grande pensador italiano Antonio Gramsci. Serão publicados neste blog levando-se em conta as particularidades da elaboração teórica de sua obra. Neste primeiro artigo, pretendo fazer uma breve análise da história que percorreu a tradução e edição os textos carcerários de Gramsci. É fundamental compreendermos a dinâmica de todo este processo, caso queiramos entender verdadeiramente a cabeça de nosso autor.


Por Adelson Vidal Alves

TEXTO 1: As edições "Temática" e "Crítica"
           
              Como é de nosso conhecimento, Gramsci escreveu a maior parte de sua obra na maturidade, preso em cárcere fascista. Ele foi detido em 8 de novembro de 1926, ainda que tendo imunidade Parlamentar, e só teve permissão para escrever 3 anos depois, quando passou a receber regularmente cadernos escolares de capa dura, em sua maioria com o carimbo de controle do presídio.

            Foram ao todo 33 cadernos e mais de 2.500 páginas impressas, onde vários assuntos são abordados, tais como pedagogia, literatura, filosofia e, principalmente, política. Quatro destes cadernos são usados como exercício de tradução, tanto em alemão quanto em inglês, quando o italiano traduz textos de Marx e Goethe. Os outros 29 cadernos são dedicados a apontamentos de Gramsci que, como ele próprio descreve em carta à sua cunhada Tatiana Schuchut, tinham como intenção superar as temáticas do “dia-a-dia”, comum nos textos do período pré-carcerário, e transformarem-se em uma obra duradoura.

            Gramsci veio a falecer em 1937, dois anos depois de cessar seus escritos. Seu trabalho, contudo, ficou em poder da cunhada, que numerou os cadernos em algarismos romanos de I a XXXIII, sem a mínima preocupação com a redação cronológica. A partir daí, inicia-se um complexo processo de disputa pela herança literária de Gramsci. Nosso autor teria sugerido em vida entregar o material à sua família, mas a Internacional Comunista assumira a tarefa de editar as obras do pensador sardo e entregou esta empreitada a um velho amigo de Gramsci, Palmiro Togliatti. A família de Gramsci aceitou a proposta da IC. Porém, exigindo uma fotocópia dos originais.

            A primeira edição de Cadernos do cárcere, como ficaria conhecido o trabalho gramsciano no período da prisão, inicia-se em 1948, na Itália. Togliatti, a princípio, conhecia pouco dos escritos gramscianos, e logo depois de estudá-los, pode perceber uma grande diferença entre o posicionamento teórico heterodoxo de Gramsci e o marxismo vulgar adotado por Stalin. Togliatti, assim, prometeu rever com cuidado os documentos, o que de certa forma ainda hoje arranca desconfianças sobre sua tradução, que ficou conhecida como “Edição temática”.

            A edição de Togliatti, como nos sugere o título, caracterizou-se pela separação por temas dos apontamentos gramscianos. Devemos ressaltar que os escritos de Gramsci são divididos em duas partes: os chamados “cadernos miscelâneos” e os “cadernos especiais”. Nos primeiros, estavam os apontamentos diversificados de Gramsci, com títulos e descrições por vezes repetitivas, enquanto nos segundos, nosso autor teve uma preocupação maior com a sistematização e desenvolvimento de variados temas. Ele mesmo dividiu esses cadernos: os “miscelâneos” (1,2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 14, 15 e 17) e os “especiais” (10, 11, 12, 13, 16, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28 e 19).

            A divisão por temas feita por Togliatti, de certa forma, facilita ao leitor a compreensão de uma obra tão fragmentada como a de Gramsci, mas perde caráter crítico ao sugerir uma homogeneidade histórica na elaboração dos escritos. Isto coloca cientificamente em xeque a contextualização adequada do pensamento do comunista italiano. Além do mais, o próprio tradutor evita assinar os textos, talvez pelo fato de temer um confronto com a vulgata marxista da IC.

            A “Edição temática” de Togliatti logo sofreu pesadas críticas dos estudiosos de Gramsci. Todavia, não se pode desconsiderar o esforço deste trabalho, sem o qual, talvez hoje nosso autor fosse lembrado apenas como um mártir na luta anti-fascista e não como um teórico brilhante e renovador da tradição marxista.

A edição Gerratana

            Um novo projeto de publicação das obras do cárcere começa por iniciativa do Instituto Gramsci, que deu a Valentina Gerratana, um competente pesquisador, a tarefa de reelaborar os escritos de Gramsci, partindo de uma definição mais clara e cronológica dos apontamentos. A “Edição crítica” ou “Edição Gerratana” como foi denominada a nova edição, é sem dúvida, uma publicação imprescindível para os novos estudos sobre o ordenamento teórico do pensamento gramsciano.

O trabalho só foi concluído em 1975, e é até hoje a base das diversas traduções dos Cadernos do cárcere. São mais de 2.400 páginas, divididas em quatro volumes e com direito a mais de 1.000 páginas dedicadas inteiramente à um aparato crítico, que inclui citação, história e definições mais claras sobre acontecimentos e autores que Gramsci cita. A edição Gerratana traz luz sob o pensamento de Gramsci na medida em que nos situa historicamente na construção de sua teoria.

Assim como a “temática”, a edição Gerratana já recebe críticas e propostas de reelaboração de novos projetos, que têm em vista inclusive a publicação dos vários exercícios de tradução, expostos em quatro cadernos.

O que nos interessa, a partir deste resumo rápido da história da publicação dos cadernos, é compreender o caráter complexo e fragmentário dos escritos gramscianos carcerários. Não se trata de um autor que publicou livros e apesar de sua clara intenção sistemática, sua obra nos chegou recortada pelas condições físicas e geográficas as quais foi obrigado a enfrentar. Sendo assim, entender o pensamento de Gramsci é algo que nos exige leitura e muito estudo, com a pena de defini-lo com colocações bizarras, se por acaso nos faltar empenho e metodologia na interpretação de sua obra.

No próximo artigo, iremos conhecer um pouco da recepção da obra gramsciana no Brasil e também a edição brasileira dos Cadernos.

Créditos:

Revisão textual: Regina Vilarinhos

2 comentários:

  1. Amigos, é possivel que alguns de vcs percebam que o título do texto tenha mudado. Quero justificar que foi um pequeno erro e que agora está corrigido: As edições "temática" e "Critica".

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  2. Boa introdução à leitura de Gramsci.

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