Por Adelson Vidal Alves

A mobilização partidária em favor
de corruptos comprovados por uma de nossas mais sólidas instituições
democráticas confronta com a proposta originária do PT, que outrora
reivindicava o monopólio da ética na política, e hoje se presta a proteger a quem
viola de forma desavergonhada os padrões éticos da vida pública.
Houve tempos em que o partido
montava rifas, bingos e sorteios, com o objetivo de levantar recursos para
campanhas eleitorais, a fim de que não se dependesse do dinheiro de banqueiros,
latifundiários e grandes capitalistas. Em seu novo formato, o financiamento de
campanha lhe é garantido pelo poder econômico dominante, e seus jantares
solidários servem como desoneração a quem comprovadamente se serviu como
corrupto e corruptor do sistema republicano.
A AP 470, conhecida como AP do mensalão,
foi uma oportunidade valorosa para que o PT pudesse acertar suas contas com sua
metamorfose histórica. Era momento de se fazer autocrítica pública, expulsar os
envolvidos em corrupção, cortar na própria carne, e assim recuperar seu capital
ético frente às massas. Preferiu, porém, criar fábulas de uma “mídia golpista”
interessada em derrubar o governo. Escolheu desafiar o ordenamento democrático
afrontando suas instituições, jogando o povo contra nossa Suprema Corte, e
ameaçando desestabilizar a harmonia dos poderes.
O espírito democrático e
republicano do partido sempre foi questionado. Em 1985 boicotou o colégio eleitoral,
colocando em risco caminhos mais progressistas para nossa redemocratização.
Recusou-se a homologar a carta de 1988, que visivelmente dava os alicerces para
nosso moderno processo de institucionalização da democracia. Ainda sim, não se
esperava que, no poder, o PT fosse capaz de renunciar em um período tão curto
as credenciais mínimas de um partido localizado no campo da esquerda
democrática.
José Genoino, Dirceu, Delúbio
Soares e João Paulo Cunha não tirarão um centavo dos seus bolsos para arcar com
as despesas de suas sentenças. O partido que dirige o Palácio preferiu anistiar
a quem a Justiça e a opinião pública condenou.
Ao invés de abrir discussões
internas, os petistas, ou pelo menos sua cúpula, preferiu comemorar a vitória
eleitoral do partido em meio ao julgamento. Optaram por zombar de quem não fazia
conta das urnas, mas exigia o preço a se pagar por quem tratou mal o dinheiro
público. No fundo comemoraram a impunidade. No fundo se satisfizeram em não ter
que pagar com perda de poder suas mutações éticas. No fundo, ignoraram sua própria
traição. A traição de seus princípios, a traição de sua história.
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