Por Adelson Vidal Alves

A princípio a bandeira central do
movimento nada tem de socialista, como acusam alguns intelectuais e
personalidades da direita. A maioria dos países capitalistas centrais já realizou
sua reforma agrária, como forma de impulsionar seu mercado interno, aumentando
o consumo e a dinâmica de suas economias. Por aqui, a mentalidade colonial das
elites do campo ainda impede a construção de uma política que potencialize
nosso capitalismo, através de uma combinação de modernização da produção
agrícola com geração de renda em propriedades de caráter familiar.
É exatamente esta dívida
histórica de nossas elites que força a existência de movimentos como o MST, que
não treinam terroristas em Cuba para tomar o poder de assalto, mas
corajosamente organizam os pobres do campo na luta pelo meio de seu sustento.
Graças a ele e seus aliados, que hoje milhares de famílias podem sobreviver de
seu trabalho, abastecendo o mercado interno, e impedindo que nossa soberania alimentar
seja ameaçada pelo agronegócio.
Acontece que não são apenas as
elites as barreiras para a realização da reforma agrária. Há mais de 500 anos os
sucessivos governos, em suas formas mais variadas, corporativistas,
ditatoriais, populistas e mesmo democráticas, vêm se recusando a assumir ações
mais ousadas pelo povo do campo. É bem verdade que João Goulart tentou algo mais
forte em relação a uma política agrária, que distribuísse a propriedade rural.
Mas a ausência de correlação de forças o fez ser vítima de um golpe
civil-militar, que retirou completamente de pauta um mecanismo estrutural de
reforma fundiária. Ainda que paradoxalmente tenha sido no neste regime a
implantação de algumas ferramentas legais que introduziram o debate da situação
camponesa, como o “Estatuto da Terra”.
Indo um pouco mais a frente,
chegando a nosso tempo republicano, a discussão quanto às injustiças agrárias obtiveram
pouquíssimos avanços. Os governos Collor e FHC paralisaram medidas de
democratização da propriedade da terra, e usaram da força para impedir que
avanços mais significativos partissem do povo organizado. O MST reagiu com mais
ocupação, marchas, e oposições ferozes a FHC e seu governo. Como o bloco de
alianças tucano-pefelista demonstrava visível alinhamento com os inimigos da
reforma agrária, a atuação do MST era compreensível e até mesmo digna de apoio.
Mas a história parecia mudar a
favor dos lutadores da terra. Um partido historicamente comprometido com a luta
dos camponeses chegou em 2002, pela via democrática, ao poder central do país . Hoje,
dez anos depois, os números repetem a tragédia de seu antecessor tucano. Suas
políticas agrícolas são mais conservadoras que as apresentadas pela direita, que
só perpetuam o sofrimento no campo. O tratamento do MST em relação a ele,
contudo, é diferente. Nada de marchas pedindo o impeachment do presidente, ao
contrário, em 2005 assinou um documento defendendo o governo das acusações de
corrupção, hoje comprovadas pelo tribunal maior de nossa Justiça democrática.
Mesmo que as pressões prossigam e
que parte significativa de suas bases assumam tons mais fortes de críticas, o
fato é que a direção central segue apoiando o governo. Nas últimas eleições
tomou lado petista em todos os pleitos, sempre julgando haver diferenças nos
dois governos que igualmente protegeram o agronegócio.
A explicação para tal incoerência
não se encontra apenas na ligação histórica do MST com o PT. Mas principalmente
pela intervenção do movimento nas instâncias do poder. Ainda que a reforma
agrária não saia, vários integrantes dos sem-terra tem entrada livre nos
gabinetes palacianos. Sem falar que o próprio movimento se beneficia de
recursos legais vindos do Estado, através de ONGs com comprovada ligação com
o movimento.
Pesa ainda o fato de que a política de assentamentos do PT centra sua estratégia no assistencialismo às famílias que não conseguem sucesso produtivo, exatamente porque esse mesmo governo lhe nega crédito e assistência técnica, que diga-se de passagem, sobra aos empresários do agronegócio.
Não se trata de atacar o MST.
Pelo contrário, ele deve ser defendido com unhas e dentes por todos aqueles que
sonham uma nova realidade agrária, mais justa e solidária. O movimento, porém,
precisa recuperar o fôlego de sua autonomia, situar-se para além das ilusões de
uma nova política dentro do atual bloco de poder. Deve compreender de uma vez
por todas que as esperanças que tínhamos nesse governo foram embora junto com a
ética que seu partido dirigente reivindicou em sua forma originária.
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