quarta-feira, 2 de março de 2016

Por que derrotar Neto e o PMDB?

Por Adelson Vidal Alves


Devo iniciar esclarecendo que participei do último governo Neto, e emprestei meu apoio e voto em todas vezes que seu grupo governou. Não me arrependo. Foi um tempo onde Volta Redonda teve seu maior desenvolvimento urbano e social, que teve inicio na gestão de Paulo Cezar Baltazar. Ainda que sempre avesso a diálogos, Neto promoveu geração de empregos, modernização de setores da saúde, e urbanizou em 100% a periferia. Seu ciclo, no entanto, se esgotou.

A democracia não tolera perpetuação no poder, mesmo que se renove na governança, Neto sabia disso e prometeu renovar, mas não renovou, repetiu fórmulas anacrônicas e se perdeu. Hoje o governo mal consegue tapar os buracos de suas ruas, aprofunda a desvalorização de médicos e professores, podendo sofrer uma greve. Paralisa obras importantes por descaso, não paga funcionários, tira dinheiro de eventos culturais e dá calote em artistas e professores. Todos os sinais da fase terminal do “jeito Neto de governar”, cercado por gente de pouca criatividade, seu fim é iminente.

A importância de derrotar Neto se estende a necessidade de se derrotar o PMDB, isso por que vivemos uma conjuntura nova e perigosa. Neto pretende lançar Sebastião Faria, um tecnicista político pouco conhecido na cidade, que já chega desgastado pela crise da saúde. Sem decolar nas pesquisas internas, pode ser que seja substituído por um político profissional, como o deputado Deley, em declínio eleitoral já há algum tempo. Tudo isso anima uma candidatura mais viável dentro do PMDB, a de América Tereza, apadrinhada pelo poderoso Edson Albertassi. Aqui se insere um projeto político que engloba o partido a nível estadual e nacional. O PMDB pretende se fortalecer no estado com fim a dar palanque para uma candidatura presidencial em 2018, provavelmente com Eduardo Paes, e sustentar Pezão, que sofre números alarmantes de impopularidade.

Em Volta Redonda faz-se urgente a construção de um bloco político de centro, capaz de apresentar um programa novo de cidade, que contemple as necessidades das pessoas e do município. Um bloco de poder coerente, que não mire o poder pelo poder, mas seja capaz de aplicar reformas profundas na estrutura administrativa, que sofre com fisiologismo, nepotismo e patrimonialismo.


Viabilizar um nome que lidere todos esses anseios é o desafio de uma oposição que tem errado muito em seu papel opositor, mas pode hoje unir forças contra os males maiores desta eleição: Neto e o PMDB. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Hino racial

Por Adelson Vidal Alves



Hesitei em escrever este artigo. Costumo ser lido mal, levado para campos ideológicos que não me pertencem, visto exageradamente como inimigo de causas que também são minhas. Mas o dever do intelectual é sempre provocar custe o que custar, aprendi isso com o grande Chico de Oliveira, por isso, provoquei.

O que vou falar é sobre o recente clipe do rapper voltarredondense Thiago Elniño. Já fiz isso com uma outra música do cantor, em forma de carta aberta, que ele não respondeu. Entendo perfeitamente sua postura, um músico tem mais o que fazer do que ficar respondendo blogueiros atrevidos.  Só que novamente vou importunar sua figura pública com minha opinião, que não é dada simplesmente por ser dada, mas por dever de alguém que milita desde sempre pela “des-racialização” do Brasil. Vamos então aos pontos.

A música tem o título “Diáspora”, que significa dispersão de um povo, no caso da canção, do povo negro, da África para algum lugar. O refrão é taxativo: “Busque sua raiz ou morra pela raiz”, uma convocação para o povo negro a reencontrar sua identidade racial, se reunir como raça e viver como raça. Na estética do clipe a coreografia da religiosidade de matriz africana, o posicionamento de quem quer chamar o negro para assumir a sua posição racial. Nada a comentar sobre o conjunto musical e poético, não tenho competência para isso, me interessa a mensagem, e essa tem uma conteúdo perigoso: a de que existiria um “povo negro” de ancestralidade comum.

Bem, é fato científico de que tal visão não faz sentido, pelo menos não no Brasil. A genética vem comprovando que a cor da pele em um país mestiço como o nosso não conta nada sobre suas origens. Basta citar pesquisa emblemática do geneticista Sérgio Penna, da UFMG, que testou o DNA de negros e brancos na busca de sua ancestralidade.  O resultado é surpreendente. Neguinho da Beija Flor, um dos voluntários da pesquisa, tem 70% de seu DNA vindo da Europa. Seria ele na verdade branquinho da Beija Flor?

Essa realidade brasileira tem explicação histórica e é simples: nunca tivemos em nossa história leis raciais. Nos EUA, de onde se importa grande parte das políticas racialistas, permaneceu por bastante tempo leis de discriminação racial, como as leis Jim Crow, que separavam negros e brancos no uso de escolas, lugares de lazer e transporte coletivo. Os casamentos inter-raciais só foram liberados em 1965. Por lá se vigorou a Gota de sangue única, que taxava como negra toda a pessoa que tivesse nem que seja um ancestral africano. Mesmo com uma abolição capenga, o Brasil jamais fez algo semelhante.

Sem ter parâmetros científicos para ligar pessoas de pele negra a uma ancestralidade racial comum, costuma-se se usar a cultura como ponto de ligação. O cabelo, a religiosidade, o apreço pelos tambores, a devoção por orixás, oxalás e oguns, tudo isso estaria inserido como um chip na vida cultural dos negros, negar isso seria trair a raça. É essa a grande trama montada pelo multiculturalismo do movimento negro.

Mas há quem diga que tudo isso é por conta da luta de um povo que além de ser a maioria do país está em maioria também na pobreza. Em uma das apresentações do clipe de El Niño aparecem informações como essas, mas elas são equivocadas.

Segundo o Censo, a maioria dos brasileiros, cerca de 53,7% se declaram brancos, 43,1% se disseram pardos, e apenas 7,6% se assumiram pretos. Só que o IBGE e outros órgãos costumam unificar pardos e pretos na categoria “negros”, ignorando a identidade intermediária que grande parte da população brasileira se assume. Assim como nos EUA, querem criar um país bi-racial, só assim as estatísticas sustentariam as bandeiras racialistas. Devo completar que a grande maioria de pobres no Brasil não é negra. Segundo o PNAD de 2006, 60% dos mais pobres no Brasil se afirmam pardos e apenas 9% negros.

Percebe-se, aqui, que a pobreza no Brasil tem todas as cores, e que o sangue misturado não nos autoriza recrutar pessoas pelo viés racial, base histórica de todo pensamento racista.


Concluindo e voltando a música, penso que El Niño se posicionou como artista e formador de opinião, e por isso está sujeito a críticas e questionamentos. Volto a afirmar que não tenho qualquer avaliação do clipe, meu artigo apenas usou da mensagem de sua música para debater o tema sensível da racialidade. De certo forma, sua música nos emprestou este espaço para o debate que respeitosamente utilizei. Espero poder contar com o mesmo respeito dos meus interlocutores. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Esquerda e civismo

Por Adelson Vidal Alves



Em missa realizada em São Paulo por ocasião do aniversário da cidade, o prefeito Fernando Haddad, enquanto concedia uma entrevista, era hostilizado por ativistas, chegando a ser atingido por uma garrafa pet. Já o governador Geraldo Alckmin teve que sair pelos fundos da igreja para não ser agredido. Os agressores seriam membros do MPL (Movimento Passe Livre), que vem organizando uma série de manifestações contra o aumento das tarifas de transporte, algumas delas terminando em violência e depredação do patrimônio público.

Em Porto Alegre, enquanto falava a imprensa, o polêmico deputado Jair Bolsonaro era xingado de fascista e homofóbico, com direito a levar um banho de purpurina. Os “manifestantes” participam do Levante Popular da Juventude.

Os casos acima ilustram o comportamento autoritário e truculento que parte de nossa esquerda elegeu como estratégia de luta. Tanta agressividade seria, segundo tais movimentos, “reação dos oprimidos” contra a violência dos opressores. Neste caso, suas verdades e opiniões devem ser impostas pelo grito, pela violência e pela desmoralização, em nome da justiça. Para se chegar a um mundo melhor valeria tudo, do desrespeito público a autoridades constituídas a atos de agressão física e verbal.

Uma esquerda assim não conhece os valores do civismo, da necessidade de se comportar nos limites constitucionais e democráticos. Rejeitam a via pacífica que oferece as instituições, o caminho seguro para que encaminhemos soluções coletivas sem que a ordem seja sabotada. Ao contrário, enxergam a democracia como sendo “burguesa”, com cartas marcadas e a serviço dos ricos. Desconsideram, em absoluto, que o valor da democracia é universal, conquista da civilização e sem roupagem de classe.

O que se espera para nosso tempo é uma esquerda moderna, obediente às leis, inserida no aparelho democrático do Estado de direito, que se guie pela busca constante de consensos, obtidos pelo diálogo persistente entre os vários atores sociais, representados no Estado e participantes da sociedade organizada.


Não se pode esperar vencer as injustiças com violência, e nem a intolerância com mais intolerância. A radicalização só serve para intensificar tensões, provocar ânimos, animar o ódio de alguns. Insistir por esta via é mais do que sinal de atraso, mas de apoio à barbárie. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O fim da era Neto

Por Adelson Vidal Alves



A democracia proporciona a saudável alternância de poderes. Nem mesmo os mais carismáticos líderes conseguem sobreviver ao tempo na medida em que tudo se esgota, há uma espécie de desgaste natural de toda forma de governança. Em Volta Redonda, depois de tantas previsões apocalípticas, parece que a era Neto chegou ao fim.

Os sinais do fim vem de seu próprio governo, inerte, sem criatividade, preso a paradigmas ultrapassados, distante do povo, imerso numa crise administrativa e cercado de gente que não tem mínima vocação de governo. Mas sempre foi assim, dirão alguns, e talvez estejam certos. A diferença é que, antes, a figura de Neto, bom gestor, competente, fazedor de obras, se exauriu em meio ao esgotamento de um ciclo de governo onde a urbanização e o aperfeiçoamento e modernização de variados setores da gestão pública deram certo. Hoje, a exigência de criatividade e renovação não foi cumprida pelo prefeito, que se comprometeu a mudar e não mudou.

O vácuo político que se abre, no entanto, não será preenchido automaticamente. É preciso fazer política. Os adversários vão precisar elaborar uma alternativa que convença a população, com um programa de governo que atenda as principais demandas do município. Não me parece que tais saídas venham de uma oposição radical, ninguém quer uma mudança total, o sentimento é de uma “renovação conservadora” se me permitem usar este termo aparentemente híbrido. Mas o que quero dizer, é que o grande vencedor será aquele que buscar uma espécie de “terceira via”, ou uma “oposição moderada”, que não jogue tudo o que foi feito fora, mas que se proponha a avançar.

Penso que algumas bandeiras devem ser levantadas: a criação de um novo PCCS para os servidores públicos, uma reforma administrativa que elimine, pelo menos, 50% dos cargos comissionados. Algumas secretarias, criadas para serem usadas no balcão de negócios, devem ser desativadas, caso da inexplicável secretaria de desenvolvimento econômico. A retomada de projetos que permitam o primeiro atendimento médico, com valorização dos profissionais; a realização de concursos para as áreas técnicas ocupadas por cargos comissionados; investimento na saúde de acordo com a Constituição; a reorganização do espaço escolar com a diminuição do número de alunos; um auditoria independente nas contas da prefeitura, de modo a reconhecer a real situação econômica do município, valorização dos conselhos municipais, uma renovação no programa Orçamento participativo; e a elaboração séria de uma política cultural para a cidade.


São bandeiras básicas de qualquer candidato que se pretenda substituir Neto com um viés democrático e responsável. A cidade aguarda ansiosa quem de fato terá condições de assumir essas e tantas outras bandeiras. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

No carnaval de Volta Redonda, o povo dançou

Por Adelson Vidal Alves



O antropólogo Roberto da Matta, em seu clássico “Carnavais, malandros e heróis”, fez bem a separação entre o carnaval de rua e o carnaval privado. Escreveu ele : “Na rua, o carnaval assume, sobretudo, a forma de encontro aberto (...) ao passo que, nos clubes, se trata de um ambiente mais bem marcado (...) dominados pelo plano econômico”. Pois bem, em Volta Redonda, sob a direção da secretária de cultura Rosane Gonçalves, o carnaval deverá ser “privatizado”. Sim, pois a prefeitura, desde os anos anteriores, quando negou aos blocos de rua serpentinas e outros artefatos carnavalescos com a desculpa ridícula de evitar “sujeira”, vem retirando da maior festa popular do planeta seu caráter popular.

Em reunião dentro de uma boate de Volta Redonda, alguns blocos foram comunicados das regras burocráticas estabelecidas como condição para saírem em seus respectivos bairros. Regras, na maior parte dos casos, quase impossíveis de serem cumpridas à risca. A desculpa da vez? Motivos de segurança. A saída “genial” (com aspas e ironia) encontrada pela secretária de cultura será aglutinar todos os blocos na Ilha São João, em uma festa sob vigilância institucional e com todo o caráter popular das ruas descaracterizado. Quem sabe um Monobloco ou uma Preta Gil apareça por lá para dar glamour à festa, que será minguada pela ausência das tradições de rua, das inversões de valores e do descumprimento tolerável de algumas regras formais? Os foliões serão vigiados pelo cassetete da Polícia e pelos fiscais da secretaria. A cerveja e as bebidas? Bem, isso vai depender da marca que vencer a licitação, que de quebra, vai monopolizar o consumo. Para ficar pior, só mesmo cobrando entrada.

As consequências de tanta burocratização podem ser as piores. A descaracterização já é uma realidade, mas há de se temer que a rebeldia popular resolva enfrentar as regras e organizar eventos clandestinos, aí sim, com todo o risco de violência e outros incidentes. A verdade é que no carnaval, o povo dançou. E dançou por culpa de uma secretária de cultura que não sabe nada de cultura e que conta com o apoio persistente do prefeito Neto, que não será perdoado pelo dia em que a nomeou.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

As lições do Jesus histórico

Por Adelson Vidal Alves



Como todos sabem, sou agnóstico (tenho dúvidas sobre Deus ainda que não negue categoricamente sua existência), sendo assim, não me interesso pelo o Jesus “Cristo”, o divino construído teologicamente durante os séculos, mas sempre fui curioso quanto à vida histórica do homem no qual seu nome direciona a vida de milhões de pessoas em todo mundo. Qual foi sua mensagem, seu estilo de vida, sua pregação e seus sonhos.

Neste aspecto, ainda que com pouquíssimas fontes fora dos evangelhos, os historiadores começam a estabelecer consenso sobre o Jesus da Palestina do século I. Para isso, os pesquisadores tentam separar o que da bíblia podemos afirmar como sendo histórico, ou com alguma marca histórica, e o que é produção de fé. Faz-se isso confrontando os textos com fontes arqueológicas e filológicas que vão se encontrando nos últimos anos.

De cara, descartamos o Cristo que prevalece entre as igrejas eletrônicas, aquelas da teologia da prosperidade. Ele nasceu pobre, em uma pequena região de 400 habitantes chamada Nazaré, não recebeu presentes no seu nascimento, veio de uma família com poucos recursos, seguiu o trabalho rude de seu pai, como operário ou camponês (talvez as duas coisas), foi judeu e jamais pretendeu fundar uma nova religião, morreu por uma sentença política devido a sua práxis, e ao invés de aceitar sua morte como expiação pelos pecados da humanidade, fugiu dela, e tentou evitá-la ao máximo.

Em sua mensagem, o Jesus histórico toma lado politicamente: o dos pobres e marginalizados. Os marginalizados inclui as mulheres, leprosos (vistos muito mais que doentes, mas como amaldiçoados) escravos, e provavelmente gays. Jamais enxergou em Deus a obrigação da prosperidade para com seus fiéis, ao contrário, direcionou críticas fortes aos ricos, por saber que a riqueza deles produz a pobreza de tantos. Contra isso, colocou os pobres no topo das bem aventuranças.

Jesus era um milenarista, isto é, acreditava no fim iminente do mundo, na construção do Reino de Deus na terra, com o triunfo da justiça contra o modelo de dominação romana e das elites judaicas. Por isso pregou a solidariedade, o amor ao próximo, sobretudo aos menores, combateu a inveja, a avareza e a soberba, o salvo, segundo Jesus, deveria ser humilde.


Este Jesus, despido das mágicas, milagres e feitos grandiosos, é lembrado pouco, mesmo nas festas que carregam seu nome. Mas ele, a exemplo de tantos outros homens que andaram por esse solo, trouxe uma mensagem libertadora. Se os cristãos a seguissem, certamente teríamos um mundo melhor. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O triunfo do amor líquido

Por Adelson Vidal Alves



Zigmunt Bauman, o famoso sociólogo polonês, cunhou o termo “modernidade líquida” para caracterizar os tempos atuais onde tudo perde solidez, e as pessoas, valores e sentimentos ingressam em um grande mercado, onde as mercadorias são rapidamente descartadas ao gosto liquido do consumidor. Diante desse descarte constante de coisas, nem mesmo o mais supremo e metafísico dos sentimentos escapa. O amor, que desde sempre fez casais enamorados suspirarem em noites enluaradas, também seria um objeto na sociedade dos consumidores. A pessoa amada apenas atenderia aos padrões temporários do gosto do consumidor, e como tudo é líquido e se desfaz rápido, essa logo deixará de seduzir aquele que consome, será trocada por outra mercadoria. A era dos amores duradouros e do “eu te amo pra sempre” teria chegado ao fim (essa tese é desenvolvida no livro “amor líquido” do mesmo autor polonês).

Tal avaliação, claramente pessimista para os românticos, se levada ao pé da letra, nos faria desistir de costumes e tradições que sustentam a maior parte das sociedades ocidentais. Nisso, não devemos subestimar o papel de nossa cultura judaico-cristã, que moldou o padrão monogâmico dos relacionamentos e deu graça divina a união entre dois seres, supostamente unidos pela vontade do criador.

No entanto, sob a ótica de psicanalistas, sociólogos, antropólogos e filósofos, o amor metafísico dá lugar a análises mais concretas, e são desvendados como mecanismos da natureza humana e sua cultura. Nesse caso, não seria o caso de falar em amor no termo mágico, mas em amores, inventados pela subjetividade, construídos sob obrigações sociais, exigidos pelo medo da solidão e a carência, formados para se exibir como núcleo da felicidade. Nesse mundo amoroso, difundido pela virulência das novas redes sociais, ele se torna o grande teatro sentimental, e quem não ama tem o inferno dos pagãos descrentes, afinal, não amar é sempre sinônimo de frustração e mau humor, nunca de olhar crítico.

Mas o que a realidade grita aos nossos olhos é o triunfo absoluto do amor líquido, fundado nos alicerces frágeis da estética e do êxito material-financeiro. Como as pessoas são mercadorias, elas precisam agregar valor, para serem melhores consumidas nas sociedades dos consumidores.  A internet vende tais pessoas, com a promessa de lhes pouparem o drama do olho no olho e o trauma da rejeição, tudo acabaria com um simples offline.


Como o ser humano é cultural, ele inventa mundos, dá sentido ao que a vida se apresenta como sem sentido. Por isso as religiões, os rituais fúnebres, as supertições de fins de ano, a música, a arte. Tentar eliminar essa dimensão humana seria, a principio, uma perda de tempo. Na consciência alienada, muita coisa sai das nossas mãos para uma realidade supraterrestre. Nós, humanistas, temos dificuldade em lidar com isso. Talvez estejamos errados. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mais um tiro pela culatra

Por Adelson Vidal Alves

















Dilma não é uma boa negociadora política. É mandona, autoritária, não tem o borogodó para fazer os afagos que exigem nossa democracia tropical. Arrogante, se acha a eterna e exclusiva comandante do barco, mesmo quando este esta à beira do naufrágio. Numa dessas, desprestigiou seu vice, Michel Temer, o reduzindo a bombeiro, com a tarefa única de apagar os incêndios que ora o PMDB aprontava no parlamento.

Hoje, fragilizada pela possibilidade de impeachment, vem sendo alvo de chantagens e pressões de todos os lados. Michel Temer, dispondo do momento favorável, resolveu-lhe cobrar, em carta pessoal, o desprestigio que vem sendo lhe oferecido. A epístola combina lições do jogo político com um apelo magoado por reconhecimento. O Planalto, em mais uma prova que não podemos subestimar sua capacidade de faze bobagem, providenciou o vazamento da carta, que jogou Temer para os braços da oposição pró-impeachment.

A ideia do governo era rotular Temer como um conspirador golpista, um traidor. Mas a tentativa saiu como um tiro pela culatra. Isso por que Temer não é um Ministro rebelde, ou mesmo um deputado da base aliada contrariado pela falta de atenção governista. Mas sim Vice-Presidente da República, alguém com quem Dilma divide o êxito eleitoral e suas responsabilidades de governo. Foram eleitos juntos na mesma chapa. Sendo assim, é impossível separar o governo de sua imagem.


O jeito atrapalhado do Planalto lidar com a política empurra a presidente para o isolamento, que agora vê sua base em conflito. Subestimou a força de Temer, e agora tem diante de si a tarefa urgente de recompor a aliança com Temer e o PMDB, com o risco eminente de ver uma parte de seus aliados mudarem de lado na batalha do impeachment. Ai as mudanças de cenário podem ser negativas para Dilma. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A questão do Estado

Por Adelson Vidal Alves



As crises costumam trazer a tona o debate quanto ao papel e a natureza do Estado. Nestes momentos, até mesmo os advogados do livre mercado e do Estado mínimo, recorrem a ele como forma de primeiro bote salva-vidas. Mas afinal, o que é o Estado? Qual sua natureza? Precisamos dele? Podemos sonhar com um mundo sem Estado?

Durante a história, vários pensadores teorizaram sobre o Estado. Thomas Hobbes, teórico do absolutismo da Idade moderna, tratava o poder estatal como regulador necessário a uma natureza humana egoísta pronta a eliminar uns aos outros. Em sua obra clássica “o Leviatã”, este Estado é fruto de um pacto que elimina liberdades individuais, entregue a um soberano com funções rígidas de controle e intervenção.

Para Hegel, o Estado é visto como a plenitude do desenvolvimento espiritual. A síntese final de um desenvolvimento histórico guiado por Deus. No Estado repousaria a organização absoluta da vida universal. Em Marx, ele é a organização de poder que se estabelece a partir das bases materiais de produção de uma determinada sociedade. Ele existiria em função da dominação de uma classe sobre outra, sendo a expressão política da opressão de um grupo sobre outro, o que fez Marx projetar uma sociedade livre tendo como condição o fenecimento do Estado.

Os dois primeiros pensadores tem no Estado uma instituição permanente, enquanto Marx condiciona a emancipação humana ao desaparecimento deste poder político. Os marxistas, então, tem um olhar negativo sobre a política, e defendem uma revolução social que seja capaz de criar um mundo de “autogoverno”. A história, no entanto, nunca se aproximou de algo neste sentido. Mesmos nos regimes que se reivindicaram inspirados em Marx, o Estado aumentou de tamanho, ao invés de diminuir, como propunha o filósofo alemão. Só que, ao contrário do que os marxistas ortodoxos imaginavam, o Estado não aumentou em autoritarismo, mas seguiu, nas sociedades ocidentais, um caminho democratizante, a ponto de se abrirem às conquistas das classes subalternas. Ele já não é mais o “comitê executivo das classes dominantes”.

As forças democráticas, em geral, estão convencidas da impossibilidade de se avançar caminhos civilizatórios por atitudes que  violem a via institucional. Isto por que, o Estado democrático de direito amadureceu pela ação direta de variados atores sociais, sobretudo, os grupos de baixo. O caminho para uma transformação social só é aceita pela via do reformismo, capaz de alterar o jogo de forças e de forma gradual estabelecer uma nova cultura de vivência, o que por sua vez forçará a renovação, ou até a abolição e criação de novas instituições.

A direita precisa de um Estado, ainda que restrito em suas funções. Mas a esquerda, que de alguma forma especula um mundo com mais liberdade, pode imaginar e sonhar com o fim do Estado. Mas esta possibilidade deve ser construída, com a ação cotidiana de democratização dos organismos modernos de Estado. Eles hoje estão abertos a criação de consensos pacíficos, formados pela luta e pelo debate de grupos socais inseridos no jogo democrático. Para usar as palavras de um dos principais documentos do Partido Comunista Italiano, deve se pensar a nova sociedade como uma “grande marcha por entre as instituições”, palavras estas que se contrapõem a estratégias como a do maoismo, que coloca a violência como via para o socialismo.

O debate deve seguir, mas o atual momento histórico exige a compreensão de que a evolução histórica ainda  necessita da existência de um Estado, aberto a pressões populares e com seu poder exercido de forma estendida a outros espaços da sociedade civil.



quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O mito Palmares

Por Adelson Vidal Alves

No ano de 1971, em Porto Alegre, uma organização negra, chamada Grupo Palmares, fez talvez a primeira comemoração do dia 20 de Novembro, data da morte de Zumbi, principal líder do maior quilombo da história brasileira. Zumbi foi capturado, morto e degolado no referido dia do ano de 1695, na região da Serra da Barriga, na capitania de Pernambuco, onde se localiza hoje o estado do Alagoas.  

Em 2003, no dia 9 de Janeiro, a lei 10.639 inclui o Dia Nacional da Consciência Negra no calendário escolar, ao mesmo tempo em que obrigava o ensino da história e cultura afro-brasileira.

A exaltação e evolução da data como referência da cultura negra se sobrepôs ao 13 de maio, data da abolição da escravidão, que até então era tida como centro das reflexões do movimento negro organizado. Vista como uma “falsa abolição”, a data é criticada por celebrar uma libertação que não houve.

Na verdade, a abolição da escravidão é tida, historicamente, como fruto de um conjunto de fatores econômicos, políticos e sociais, que não envolveram apenas a resistência negra, mas também a solidariedade de brancos no movimento abolicionista, que ganhou o mundo e pressionou o único país independente da América a ainda adotar a escravidão a se livrar dela num ato legal. A consciência negra, do Dia 20 de novembro seria, assim,  celebração unicamente do povo negro, do protagonismo exclusivo em suas lutas. Trata-se da substituição de uma data anti-racialista, para uma data racialista.

Frente a data, o movimento negro mistifica um herói: Zumbi. Tratado como líder de um quilombo democrático e que combateu a escravidão. Ele é tido como uma figura mítica, e Palmares uma metáfora do paraíso negro, liberto da opressão branca.

Só que a história mostra Palmares de uma forma bem diferente. Ao contrário de uma sociedade igualitária, prevalecia uma organização estamental, com as lideranças do grupo gozando de privilégios. Bem diferente de combater a escravidão, Palmares se relacionava com colonizadores portugueses e mantinha escravidão no seu território, o próprio Zumbi teve escravos particulares. Zumbi mandava capturar escravos e mulheres, estas últimas eram executadas caso contrariassem a liderança do Quilombo.

No dia da Consciência Negra, será comemorado um Palmares que não existiu historicamente, mas que precisa existir nas mentes, a fim de atender os projetos de movimentos e ONGs racialistas.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

BNCC: o fim da temporalidade no ensino de história

Por Adelson Vidal Alves

March Bloch certa vez escreveu: “a história é a ciência do homem no tempo”. Já Fernand Braudel dizia que “O historiador nunca se evade do tempo da história”. Homens como eles, pensadores e cientistas da história, sabem muito bem que a temporalidade é algo precioso na vida do historiador, e de quebra, no ensino da história.

No entanto, tal compreensão vem faltando aos “especialistas” do MEC, que vem propondo uma reforma radical no conteúdo do ensino de história,  através da Base nacional Comum Curricular (BNCC) que em sua essência, vai abolir a noção de tempo histórico. Isto por que, com a desculpa de combater o eurocentrismo, os reformadores se propõem a abolir o sistema clássico francês de divisão da narrativa histórica (antiguidade, Idade média, Idade moderna e Idade contemporânea). No lugar, entraria o estudo de culturas e “mundos” próprios de alguns povos, sobreduto o dos “ameríndios” “africanos” e “afrobrasileiros”. O aluno mergulharia em compreensões de realidades culturais cercadas por muralhas étnicas, raciais e políticas. A história universal, moldada pelos feitos da tradição greco-romana, da Renascença, do cristianismo da Idade Média, da Reforma protestante, das revoluções liberais na Europa, simplesmente desapareceria dos livros de História. No lugar, a total subserviência ao multiculturalismo, sempre disposto a fragmentar.

Tamanho absurdo recebeu críticas até mesmo do ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro. Em Outubro, Janine fez suas primeiras críticas, citando a ausência do ensino da Inconfidência Mineira, rebelião colonial que nos legou a figura de Tiradentes. Vejam só! Teríamos um herói nacional, com feriado e tudo, sem sequer ser citado nos currículos de história. Neste caso, faria todo o sentido um jovem questionar o feriado de 21 de abril, afinal “quem é Tiradentes?”.

Janine, que retardou a apresentação do BNCC de história, ainda, criticou o texto original que “ignorava quase por completo o que não fosse Brasil e África”. O ex ministro também alertou para o perigo de se “descambar para a ideologia”.

Enfim, o MEC se propõe a mutilar a História mundial, ignorar a temporalidade como elemento de construção da identidade histórica, e se concentrar nos estudos de realidades recortadas historicamente, retirando dos alunos o direito de compreenderem a totalidade, os processos de rupturas e permanências que construíram a história do mundo. Um verdadeiro desastre. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sartre, Beauvoir e o jornalista apressado

Por Adelson Vidal Alves


O jornalista Aurélio Paiva, dono de um jornal de grande circulação no Sul fluminense carioca, publicou audacioso artigo em que diz que a escritora Simone Beauvoir e o filósofo Jean Paul Sartre seriam defensores de pedófilos, assim como praticantes de uma vida sexual que tratava as mulheres como objeto.

Aurélio recolhe suas informações básicas do livro “Uma relação perigosa” da historiadora escocesa Carole Saymour-Jones. Para sustentar sua narrativa, o autor se apega, ainda, em cartas póstumas de Beauvoir, assim como artigos e manifestos publicados pelo casal de intelectuais.

No entanto, algumas questões sérias foram colocadas sem a devida cautela que se exige de quem escreve um texto público, ainda mais contendo rotulações e acusações tão graves. Deve-se, também, compreender que a história não é feita por revelações mágicas  vindas de fontes solitárias que atestariam uma “verdade, pelo contrário, a história é fruto de um trabalho interpretativo do historiador, que se realiza a partir das fontes, e apesar da sua objetividade científica, ele sempre fala a partir de algum lugar. Sendo assim, tomar uma única obra com pequenos segmentos descontextualizados não é a melhor maneira de se contar a vida de uma pessoa.

Mas vamos ao artigo, intitulado “mulheres-objeto de Sarte e Simone de Beauvoir”. De início, destaco o cuidado de Aurélio a reconhecer que não há documentado qualquer caso de pedofilia envolvendo Sartre ou Beauvoir. Sim, eles tiveram relações sexuais com jovens de 16 e 17 anos, mas sempre com as suas devidas concessões. Para associar o casal à pedofilia, Aurélio teve que recuperar um manifesto assinado por ambos, onde se fazia a defesa da diminuição da idade de concessão sexual, na França daquele tempo, a idade era de 15 anos. 

É de se lembrar que Beauvoir sempre se posicionou pela emancipação de jovens como protagonistas de sua vida sexual, deixando de serem vítimas indefesas. Se isso é certo ou não, a história é outra, mas isso não significa que eles sejam pedófilos, assinaram um documento propondo a mudança de uma lei (quem assina um manifesto pedindo a legalização da maconha não é necessariamente maconheiro). É oportuno registrar que não foram apenas Sartre e Beauvoir que assinaram a petição, nomes de intelectuais de peso, como Deleuze e Foucault, também assinaram.

No artigo ainda há pequenas menções sobre, no mínimo, um silêncio dos dois em relação ao nazismo, ainda que não se repita o absurdo propagandeado de que Beauvoir era ativa colaboradora da doutrina nacional-socialista. Aurélio Paiva cita o episódio quando Simone de Beauvoir trabalhou na Rádio AVFM, controlada por nazistas. Por lhe faltar o sotaque de historiador, talvez tenha faltado a Aurélio compreender a realidade ambígua da França ocupada, o mesmo erro que muitos cometeram ao taxar de nazista o papa emérito Bento XVI, por este um dia ter sido membro da juventude nazista.

Muitos pesquisadores, como Ingrid Galster, professora de literatura alemã e estudiosa da vida de Beauvoir, garantem, depois de estudar os discursos de Beauvoir na rádio,  que não há nenhuma evidência que a escritora tenha se envolvido com o nazismo, diferente do filósofo Martin Heidegger. A posição é acompanhada pela professora de Harward, Susan Sulelman que garante não haver nenhuma prova contundente de alguma aproximação de Simone com a ideologia nazista.


Sobre Beauvoir e Sartre, sabemos que tiveram um relacionamento duradouro e livre. Não se trata de uma união aos moldes cristãos, mas acordado entre as partes, firmado sob convicções de amor e liberdade. Se erraram ao praticar algo que condenaram, isto está longe de denegrir suas imagens, construídas sob suas competências intelectuais e militantes. Estes dois pensadores contribuíram e muito para a evolução do pensamento ocidental, e nada mais infeliz que um jornalista apressado tentando desconstruir o que há séculos testemunha a história da filosofia. Há de se ter cuidado, não só para não manchar a índole de pessoas, mas, principalmente, para não deseducar a opinião pública com informações mal colocadas, para um jornalista, trata-se de um erro grave. 

Link para se ler o artigo de Aurélio Paiva: http://diariodovale.com.br/colunas/mulheres-objeto-de-sartre-e-de-simone-de-beauvoir/

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Não me lembrem de Deus, sou agnóstico

Por Adelson Vidal Alves



Nos tempos mais antigos a religião fazia todo o sentido. Como explicar a complexidade do universo, o surgimento da inteligência, o equilíbrio que relativamente preserva a existência da vida planetária? As explicações mágicas acabavam tendo supremacia, por isso o advento dos mitos, como o de Adão e Eva, o mais próximo entre nós ocidentais. Vale lembrar que mitos não são mentiras construídas por charlatães malvados, mas narrativas próprias de um tempo, que explicam coisas e acontecimentos.

Nos nossos dias, com o avanço fantástico da ciência, muito do que a religião explicava perdeu sentido. Descobrimos que não somos o centro do universo, que no Planeta Terra somos os últimos dos inquilinos, e que se algum processo de extinção vingar, somos frágeis criaturas nas mãos da seleção natural. Então, por que a religião ainda sobrevive? Por que a grande maioria das pessoas ainda toma decisões importantes da vida baseadas exclusivamente na fé?

Uma explicação rápida e marxista diria que o capitalismo produz as condições materiais para a consciência religiosa alienada, e que o homem recusa seu protagonismo vital para deitar suas esperanças em um ser estranho a si próprio. Bastaria um a revolução social que colocasse a baixo a estrutura fabricante de alienação para que Deus desapareça. Mas tal explicação, levada ao extremo, ignora a dimensão libertadora da religião, e que ela não é apenas um lugar de pessoas dóceis e obedientes, mas também o incentivo para muitos lutarem por libertação. Os exemplos estão por ai: a revolução sandinista de 1979, feita por bispos com armas na mão. Os dominicanos brasileiros, que pagaram com a vida a resistência à ditadura. Dom Helder Câmara, Dom Waldir Calheiros, Oscar Romero, Pastor Milton Schwantes, e tantos outros são provas vivas do lado libertador da fé. Sendo assim, o fenômeno religioso é muito mais complexo que imaginamos.

Mas há aqueles que negam a fé. E eles crescem cada vez mais, segundo pesquisas. Só na China, 47% das pessoas dizem não ter fé ou religião. É verdade que a existência de Deus já não traz tanto motivo para os debates. No Brasil a grande maioria é religiosa, e como se sabe, os crentes não estão dispostos a colocar sua fé a prova da razão ou da ciência. Basta crer. O ateu, também, nega veementemente Deus, e nem mesmo se um anjo aparecesse com trombetas e o levasse a um passeio pelas belezas celestiais ele estaria disposto a rever sua opinião. Afinal, poderia ser uma simples alucinação.
No entanto, entre ateus e crentes, há uma categoria, digamos intermediária: os agnósticos. A terminologia significa, etimologicamente “não conhecimento”, e na sua filosofia está a afirmação de que mesmo que Deus exista, ele não pode ser testado pela razão e pela ciência. Então, seria perda de tempo pensar na sua existência, pois ela não pode ser negada ou afirmada, a não ser pela fé, dos dois lados.

O ateísmo militante repete o fundamentalismo religioso, e tenta apresentar ao público a impossibilidade de Deus. De fato, o mundo físico não apresenta nenhuma evidência de Deus, pelo contrário, cada vez mais vemos sinais de não planejamento no universo, o que fala contra qualquer proposta de um ser supremo, inteligente e governante. Mas como dizia Carl Sagan “a ausência de evidência não é evidência da ausência”. Isto é, pode ser que no fim da vida, mesmo diante desta improvável possibilidade de existência divina, sejamos surpreendidos com alguma energia cósmica, incapaz de ser captada pela realidade empírica. Os agnósticos, assim, são aqueles que estarão um pouco mais prontos que os ateus caso esta surpresa aconteça.


No final, tudo é uma aposta. O ateu pode quebrar a cara ao chocar-se com a luz divina no fim da vida, e o crente pode ter dedicado uma vida toda, rejeitando prazeres e sacrificando escolhas, por nada. Creio que o agnóstico, ao rejeitar certezas, faz o melhor caminho. Simplesmente resolveu caminhar sem pensar em questões que não pode resolver aqui. Afinal, não custa nada esperar pra saber a verdade. De preferência, esperar bastante. 

sábado, 17 de outubro de 2015

A ineficiente guerra contra as drogas

Por Adelson Vidal Alves


Tenho convivido, nas últimas semanas, com notícias constantes de assassinatos de jovens, parte deles alunos e ex-alunos. O motivo é sempre o mesmo: o tráfico de drogas.

Para tentar combater esta realidade, usa-se sempre a mesma estratégia, a da guerra constante contra as drogas. Há quem aposte em trabalhos de conscientização contra o uso de entorpecentes, mas os resultados quase sempre são insuficientes. Isto porque, no Brasil, prevalece-se a ideia de criminalização do uso de drogas, com o uso da violência policial contra os usuários, assim como o encarceramento dos envolvidos. Há de se atentar que em nosso país não há leis que estabeleçam quantidades exatas que diferenciem usuários de traficantes, cabendo a autoridades policiais e judiciárias a definição do que é o tráfico. Na prática, prevalece o critério social e racial. Negros e pobres quase sempre acabam na cadeia.

Os assassinatos bárbaros contra jovens, seja pela polícia ou pelo tráfico, não vem do uso das drogas, mas da disputa de poder e território que se estabelece entre facções criminosas. Sendo assim, a manutenção do crime do uso das drogas acaba por manter sistemas ilegais de distribuição, e assim, a sustentação da indústria de morte e prisões, feitas pela rejeição de se legalizar o consumo com responsabilização e regulação por parte do Estado.

Seria muito mais inteligente e eficaz legalizarmos o uso das drogas leves, de inicio, e progressivamente as outras drogas. Ao descriminalizar o uso, entregando ao Estado o dever de regulação, não só o tráfico sofreria um grande impacto econômico, como os assassinatos ocorridos por conta de disputa criminosa também diminuiriam. A droga ficaria mais barata, e até o roubo para o consumo sofreria redução. De quebra, o encarceramento de pessoas cairia, aliviar-se-ia o sistema prisional e toda a sociedade sairia ganhando.

Os que são contra a legalização dizem que o uso aumentaria, afetando assim a saúde pública. No entanto, estudo realizado pelo Conselho Nacional de Drogas (JND), ligado à presidência da república uruguaia, revela que naquele país, onde o consumo de maconha é permitido, o uso da droga entre a população aumentou 1% em 2 anos, de 8,3%  para 9,3%, o menor aumento contabilizado em 14 anos. Além do mais, o índice de morte por tráfico de drogas chegou a índices próximos a zero.

A lógica simples. É muito mais eficaz deslocar a fortuna que se aplica em segurança pública e manutenção de cadeias para a área de educação e saúde pública. Garantindo aos usuários a capacidade de consumirem consciente, e de se tratarem caso se tornem viciados.
A experiência mostra que a guerra contra as drogas já fracassou. Mas o moralismo e a desinformação mantém o Brasil atrasado em relação a este debate. Enquanto isso nossos jovens seguem morrendo e sendo presos, vítimas de nossa hipocrisia.

domingo, 4 de outubro de 2015

Por que Rede Sustentabilidade

Por Adelson Vidal Alves

Nasceu a Rede Sustentabilidade. O novo partido aumenta para 35 os que estão devidamente registrados no TSE. Diante de um numero aparentemente exagerado de agremiações políticas cabe perguntar: porque Rede Sustentabilidade? O que ela traz de novo que justifique sua criação?

Antes de qualquer coisa, a Rede não é um partido pronto, e não objetiva projetos finalísticos de sociedade. Suas bandeiras se encontram com os valores democráticos e progressistas do mundo contemporâneo, mas sua organização e articulação permite a reunião de variados atores políticos, de centro, esquerda e centro-esquerda, sobretudo. O que une todos seus militantes e simpatizantes é a proposta ambiciosa de vencer a velha política, a começar por sua própria organização interna, feita em rede, superando a hierarquia burocrática que caracteriza a maior parte dos partidos tradicionais.

A Rede, ainda, pode ser considerada o eco das manifestações de Junho. A expressão política do grito das ruas, que se fez alto pela atuação das redes sociais, instrumento precioso na mobilização popular em nossos dias. A Rede se propôs sensível a toda as mudanças operadas por esta nova revolução tecnológica, fazendo desta, aliada do aprofundamento da democracia, uma das bandeiras centrais do partido.

O desenvolvimento inclusivo e sustentável é ponto importante do programa do partido. Isto é, o desenvolvimento econômico que não atenda apenas os interesses do grande capital, mas que distribua renda e respeite nossas limitações ambientais. É notório que devamos mudar nossos padrões de consumo, com a pena de ficarmos com um planeta inabitável.

A Rede não pretende ser a salvação de todos nossos problemas. Humildemente se coloca como um instrumento coletivo em construção, com a diferença que pretende vencer elementos envelhecidos de nosso sistema partidário, por isso não quer apenas uma nova forma de ser partido, mas uma revolução no sistema político representativo, preservando as instituições democráticas mas ampliando as formas de participação popular, inclusive se utilizando da internet e das novas tecnologias.


Em tempos de crise, a Rede chega pra dar respostas às problemáticas contemporâneas, sempre respeitando as pautas de um partido moderno, focando a radicalização da democracia e o desenvolvimento social e econômico de caráter inclusivo e ambientalmente sustentável. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Política e cultura em Volta Redonda

Por Adelson Vidal Alves



A cultura recebeu, no decorrer da história, uma série de conceitos e significados. Em outros tempos, ela estava ligada à beleza das artes. A relação e o gosto pelo belo era coisa de gente culta, de refinado talento para apreciar o que de melhor havia nas artes. Mais tarde, recebeu a função educadora, cabendo a ela o papel civilizatório de retirar as massas ignorantes e estúpidas de seu estado rude. E por fim, já nos nossos tempos, ela tem sua definição ampliada para o campo da produção simbólica que envolve os homens de todas as classes.

Como objeto de política de Estado, a cultura aparece somente na segunda metade do século XX, especialmente na França, no governo de Charles de Gaulle, que criou talvez o primeiro Ministério da Cultura em todo o mundo. Este, nas palavras do ministro André Malraux, era “encarregado de assuntos culturais”, “com a missão de garantir a maior audiência possível para o patrimônio cultural francês”, além de “promover obras de arte que enriquecem seu legado”.

Desde então, quase todos os países democráticos adotaram políticas públicas de cultura, voltadas para a promoção da diversidade cultural, assim como o fomento e a garantia da liberdade de criação artística. No Brasil, a cultura ganhou atenção ministerial entre meados da década de 1980 e início da década de 1990.

Os municípios, em geral, também criaram secretarias, fundações ou órgãos públicos responsáveis pelas políticas públicas de cultura. Em Volta Redonda não foi diferente. No entanto, a cidade jamais pode usufruir do que poderíamos chamar de uma política cultural genuína. Estranho, porque na cidade do aço a cultura ferve, não só pelo talento dos artistas locais, mas pela diversidade artística que oferece. Em 2012, às vésperas das eleições para a prefeitura, um forte movimento de artistas, poetas, músicos, e intelectuais resolveu reivindicar mais investimento público em cultura. Misteriosamente, finalizado as eleições e com a reeleição do prefeito, este movimento se dissolveu em reuniões secretas com a nova secretária de cultura, a desconhecida Rosane Gonçalves.

Rosane é ligada ao deputado fundamentalista Edson Albertassi, e pior que seu antecessor, Moacir de Carvalho, promoveu um profundo processo de cooptação da classe artística, que se calou mediante suas demandas corporativas atendidas. O movimento cultural, então forte e respeitável, se sucumbia a interesses pessoais mesquinhos, ao mesmo tempo em que fortalecia uma secretária de Cultura estranha no seu próprio cargo.

Hoje, quase 3 anos depois da reeleição de Antonio Francisco Neto, Rosane, desprovida de qualquer plataforma de cultura, segue tranquila no comando da Secretaria, sem ser incomodada pelos gritos até então histéricos que se direcionavam contra seu antecessor. Seja lá o que aconteceu, todo o fogo dos artistas de Volta Redonda foi completamente apagado no gabinete da Secretaria de cultura. Vai saber a que preço um movimento aparentemente tão disposto foi sufocado.